
Misso seduzir

Penny Jordan


     Um plano de vingana muito perigoso...
      Kelly Harris sempre fora cautelosa no controle da prpria vida. At conhecer Steve Mass. Aquele homem trara sua melhor amiga e Kelly decidiu se vingar! Seu
plano era simples: seduziria aquele arrogante sem corao e depois o abandonaria. Afinal, ele precisava provar do prprio veneno! O problema era que Steve era muito,
mas muito sensual. E de repente Kelly percebeu que o jogo da seduo que ela armara estava fazendo uma nica vtima: ela mesma!


     CAPTULO I
      Kelly Harris ergueu a taa de vinho e props um brinde:
       - A Beth, para que sua viagem a Praga seja um sucesso... E que a ajude a esquecer Julian.
      -  A Beth... Ela de fato merece um pouco de distrao depois de tudo o que passou - disse Anna Tretwayne, madrinha de batismo de Beth. Em seguida ela tomou
um gole de vinho. - Sinto-me um pouco culpada pelo que aconteceu... Beth no teria conhecido Julian, se eu no a houvesse convencido a abrir uma loja aqui em Rye-on-Averton.
      - Tolice. Se h algum culpado nessa histria toda,  o prprio Julian - Mary Lawson, senhoria de Kelly e de Beth, interveio. - O homem  insensvel e... -
Ela interrompeu-se e levou a taa aos lbios. Seu rosto assumiu uma expresso pesarosa. - Ele no tem corao. Iludiu a pobrezinha, encorajou-a a fazer tantos planos
para, de repente, dizer que tudo no passou de um mal-entendido, e isso justamente na noite anterior  festa de noivado. Ainda teve o descaramento de confessar que
havia se apaixonado por outra mulher. Eu pessoalmente acho que, em vez de ficar nos lamentando, deveramos dar-lhe uma boa lio, para que o safado, no torne a
brincar com os sentimentos alheios.
      - Concordo plenamente com voc... Tem alguma sugesto? - Kelly quis saber.
      Quando Beth lhe sugerira a sociedade na loja, Kelly concordara prontamente. As duas freqentaram a mesma universidade e se tornaram amigas desde o primeiro
dia de aula.
      -  Rye-on-Averton  uma adorvel cidadezinha, o sonho dos artistas e dos turistas que praticamente a invadem todos os finais de semana - dissera Beth. - Anna,
minha madrinha, acha que as pessoas sentem falta de uma loja de presentes finos na regio. No h onde se possa comprar cristais, porcelanas e coisas desse tipo...
      -  Est me propondo sociedade na loja? - Kelly indagara, incerta.
      -  Voc no vive dizendo que no est satisfeita com seu trabalho? Pois estou lhe propondo uma mudana radical.
      -  Mas assim... to de repente? Confesso que a idia  bastante tentadora.
      -   s encontrarmos o local certo para alugar. Serei a responsvel pela parte de vendas, pois j tenho experincia, e voc se encarregar dos designs. O restante
do trabalho ser dividido entre ns duas.
      -  E partilharemos igualmente a parte financeira do negcio - Kelly sugeriu na ocasio, sabendo que, embora Beth no possusse dinheiro prprio, seus pais
eram financeiramente independentes, e ela era a nica e adorada filha do casal.
      As duas ento se dedicaram inteiramente  procura do lugar ideal para a loja. Foi uma tarefa rdua, mas encontraram um ponto excelente, e, em pouco tempo,
a loja foi inaugurada.
      Desde a inaugurao, havia doze meses, as duas scias trabalhavam muito, at que, havia oito meses, Beth conhecera Julian Cox.
      Desde o incio, Kelly no simpatizou com o namorado da amiga, mas nada lhe restou a no ser observar Beth tornar-se cada vez mais dependente emocionalmente
de um homem que no lhe inspirava a menor confiana. Julian, porm, era um homem envolvente e sabia como lidar com os sentimentos das pessoas.
      -  Voc no acha que est apressando as coisas? - Kelly gentilmente perguntara, preocupada, quando Beth anunciara que, em breve, ela e Julian oficializariam
o noivado.
      -  Julian adivinhou qual seria sua reao... Disse-me que voc diria exatamente isso. Ele acha que est com cime de ns dois, de nossa felicidade. Claro que
eu disse que no era verdade.
      Cime deles?! Kelly foi forada a reconhecer a inteligncia de Julian Cox. Ao acus-la de ter cime da felicidade deles, habilmente destrua sua chance de
contar a Beth aquilo que devia ter contado havia semanas.
      As trs amigas estavam reunidas no bar da cantina, para um drinque, aps a partida de Beth para Praga. E naquele momento, sob a influncia da segunda taa
do vinho que estivera saboreando, Kelly tivera o mpeto de iniciar uma cruzada pela moralidade, e desmascarar Julian Cox como sendo o mau-carter que todos conheciam.
      - Por que dar quele traidor o privilgio de safar-se impunemente, descartar-se da culpa, do mesmo modo que se descartou de Beth? - indagou Mary.
      - Ele fez pior que isso - explodiu Kelly. - O cafajeste a humilhou publicamente. Espalhou a Deus e a todo mundo que Beth no somente o interpretou mal, como
passou a persegui-lo insistentemente, a ponto de ele pensar em process-la! Hipcrita! Todas ns sabemos que Beth no  a mentirosa dessa histria. Eu mesma o ouvi
confessar vrias vezes quanto a amava, que mal podia esperar pelo dia do casamento...
      - Isso deve ter sido na poca em que o av dela adoeceu e foi desenganado pelos mdicos - sups Mary.
      Kelly a fitou surpresa. Anna antecipou-se e comentou:
      - Foi mesmo! A proposta de casamento aconteceu exatamente quando o av de Beth adoeceu.
      Aos trinta e sete anos, Anna era a mais velha das quatro amigas. Prima mais nova da me de Beth, ela deixou de ser uma de suas damas de honra em casamento
porque contraiu sarampo. Em compensao, anos depois, ela tornou-se madrinha de batismo da criana. Adolescente que era na poca, Anna emocionou-se por ter sido
considerada madura o bastante para assumir tamanha responsabilidade.
      Mais tarde, Beth se tornou ainda mais preciosa para ela, j que no tivera filhos.
      - Vocs podem me dizer o que tem a ver o estado de sade do av de Beth com a proposta de casamento de Julian? - Kelly quis saber.
      - Use a cabea. Ele lhe props casamento quando descobriu que ela herdaria uma fortuna, caso seu av falecesse - esclareceu Mary.
      Kelly fez uma careta de horror.
      -  Ento ele estava interessado apenas no dinheiro que ela receberia?
      -  Exatamente - Mary confirmou. - E, ao saber que o velho senhor se recuperara, ele tratou de encontrar outra mulher, cuja herana fosse mais acessvel.
      -  Isso parece um melodrama barato - protestou Kelly.
      - Sempre o tive como sendo um homem com uma excelente situao financeira.
      - Julian adorava dar essa impresso - concordou Mary.
      - Na verdade, vestir-se e agir como um homem rico era essencial para seus planos.
      Aos trinta anos, Mary era mais velha do que Kelly e Beth, porm mais jovem do que Anna. Kelly e Beth a conheceram quando procuravam por um imvel para alugar.
O corretor sugerira um lugar, cuja proprietria era Mary, que na certa as agradaria.
      As duas ficaram agradavelmente surpresas e impressionadas com o modo profissional como ela conduzira a negociao. Mary era do tipo que, embora  primeira
vista parecesse ser reservada, fria, e bastante seletiva quanto a escolha dos amigos, se revelara possuidora de um caloroso senso de humor que a tornava uma pessoa
agradvel e tima companhia.
      Anna, que vivera na cidade durante os ltimos quinze anos, mesmo aps o acidente de barco ocorrido na costa de Cornwall, o qual tirara a vida de seu jovem
esposo, conhecera Mary um pouco antes de as duas scias a conhecerem. O pai de Mary fora um empresrio respeitvel e bem-sucedido e, aps sua morte, ela assumiu
os negcios da famlia, assim como seu lugar em vrios eventos sociais e beneficentes, e com isso se tornou bastante conhecida na comunidade. Quanto mais as amigas
a conheciam, mais se admiravam pelo fato de ela, sempre to atraente e carismtica, ainda estar solteira.
      - Talvez por ser to ocupada... - comentou Beth, certa vez, quando discutia o assunto com Kelly.  - Afinal, ns tambm no temos namorado.
      -  Mas ns mal chegamos  cidade... Precisamos dar tempo ao tempo... - comentou Kelly.
      -  Talvez ainda no tenha encontrado o homem ideal. Ela  uma mulher cautelosa quanto aos prprios sentimentos, e s se envolveria emocionalmente com outra
pessoa se tivesse certeza dos sentimentos de ambos.
      Kelly concordou, um pouco relutante.
      -  Eu pessoalmente acho que existe algo mais alm disso.
      -  Pode ser... Mas enfim, a vida dela no  de nossa conta.
      -  Tem razo... - Kelly concordou.
      Embora as quatro mulheres houvessem se tornado amigas ntimas, em se tratando de Mary sempre havia reservas, uma linha invisvel a qual instintivamente se
sabia que era proibido ultrapassar.
      - Voc parece saber mais sobre Julian do que qualquer uma de ns, Mary - disse Kelly, sorvendo mais um gole do vinho italiano.
      Mary deu de ombros com indiferena.
      - Julian nasceu e se criou na cidade. E, em minha posio, mesmo sem querer, eu ouo coisas.
      Kelly a fitou com ar intrigado.
      - Mas com certeza, voc teria alertado Beth, se soubesse que ele era um mau-carter.
      - Sem dvida... Mas eu estava fora da cidade quando eles se conheceram - Mary lembrou as amigas. - De qualquer maneira, duvido de que ela teria me dado ouvidos.
      - Tem razo - concordou Kelly. - Beth estava to fascinada que no ouviria nada que se dissesse contra ele. Jamais vi o relacionamento dos dois com bons olhos...
Na verdade, desde o incio duvidei das boas intenes daquele homem. Eu gostaria de poder desmascar-lo, mostrar a todos quem ele , mas o que poderamos fazer?
- Kelly olhou em torno da cantina, e, de repente, seus olhos brilharam. - Que tal o desmascararmos diante da atual noiva?
      Mary balanou a cabea.
      -  Creio que seria perda de tempo... Ela deve estar to fascinada por ele quanto Beth esteve. No. Se quisermos desmascar-lo, teremos de usar sua prpria
fraqueza para atingi-lo: a ganncia.
      - Mas como fazer isso? - Kelly estava ansiosa.
      - Pensaremos em um modo... O safado precisa de uma lio e talvez possamos faz-lo provar do prprio veneno - reiterou Mary.
      Kelly assentiu.
      - Ento, precisamos nos sentar e planejar nossa estratgia.
      Beth era uma pessoa adorvel e gentil, e no merecia a dor que Julian Cox lhe causara, a humilhao que ele a fizera sofrer. Como se no bastasse haver destroado
o corao da amiga, ele ainda insinuara que, aps o rompimento, totalmente obcecada pela rejeio que sofrer, ela passara a persegui-lo. E bvio que a histria
toda teve muitas repercusses.
      - Essa viagem foi uma idia brilhante, Mary - Kelly interveio. - Foi timo sugerir a compra de cristais da Repblica Tcheca.
      Anna suspirou.
      - Praga  uma bela cidade, o lugar ideal para romances... S espero que isso no a torne mais infeliz do que estava ao partir.  uma fase difcil para ela...
Julian devia ter a decncia
de no incomod-la, mas ele parece se divertir fazendo comentrios maldosos sobre o relacionamento vivido com Beth.
      De complexo mida e aparncia jovial, Anna havia perdido tragicamente o marido. Se vivesse na Idade Mdia, sem dvida teria recorrido  proteo e segurana
das paredes de um convento. No entanto, parecia conformada e satisfeita com a vida que levava, na companhia de seus animais de estimao, um enorme gato cinzento
e um cachorrinho branco e peludo. Sua casa era bastante acolhedora e, aos poucos, tornou-se um segundo lar para Beth e Kelly, que lamentavam o fato de a amiga no
ter se casado novamente.
      - Tomem mais um pouco de vinho, garotas... A garrafa ainda est pela metade - sugeriu Mary. Em seguida, habilidosamente, ela encheu os copos de Kelly e de
Anna.
      - Obrigada, eu no... - Kelly comeou a protestar, mas Mary a ignorou.
      - Seria um desperdcio deixar um vinho to delicioso... Eu no posso tomar. Estou dirigindo.
      Foi Mary quem assumiu o comando das coisas quando Beth literalmente desabou, aps Julian lhe dizer friamente que no a queria mais. E foi ela quem sugeriu
a Beth que fosse  Praga comprar cristais, na esperana de que a viagem a ajudasse a esquecer seu desastroso noivado. Ela tambm levara as amigas ao aeroporto, para
que pudessem se despedir de Beth. E agora continuava no comando, fazendo planos e dando sugestes.
      - Ento, agora que concordamos que Julian deve ser punido e desmascarado, precisamos agir. - Mary olhou para Kelly, antes de acrescentar: - Kelly, voc mencionou
que ele a assediou, e que, por diversas vezes, tentou encoraj-la a sair com ele s escondidas...
      -  verdade - concordou Kelly. - No contei a ela na ocasio, porque no queria mago-la, e quando resolvi contar, era tarde...
      Mary sorriu pensativamente.
      - Poderemos usar isso contra ele. - Em seguida voltou-se para Anna: - Julian lhe pediu um emprstimo, no foi, Anna? Disse que o dinheiro seria para fazer
um depsito no banco para a casa que pretendia comprar para ele e Beth morarem?
      Anna assentiu.
      -  Ele apareceu em casa sem avisar, dizendo que o dinheiro que tinha economizado estava aplicado em diversos investimentos. Mas como Beth tinha visto a casa
e ficado impressionada, ele no queria desapont-la e garantiu que, em poucos meses, eu teria o dinheiro de volta.
      -  Obviamente, contava com a herana que Beth receberia - interrompeu Kelly nervosamente. - Como algum pode ser to frio e calculista?
      - Lembre-se de que no estamos falando de um homem qualquer, mas de Julian Cox - interveio Mary. - E ele j tirou o dinheiro de vrias mulheres inocentes e
ingnuas... e no s o dinheiro - concluiu ela, baixando o tom de voz.
      Algo em sua expresso fez com que Kelly a estudasse mais atentamente. O vinho comeava a deix-la zonza, mas sabia que no estava imaginando coisas e que aquela
estranha combinao de vulnerabilidade e mgoa nos olhos amendoados da amiga era real. Havia algo ali e se sentiu impelida a descobrir.
      - Se voc sabia dessas histrias, por que no avisou Beth? - perguntou ela a Mary, pela segunda vez.
      - Como eu disse, encontrava-me em Northumberland, cuidando de uma velha tia quando eles se conheceram. Ao voltar e saber o que estava acontecendo, era tarde.
Estavam prestes a anunciar o noivado.
      -  Eu me lembro disso - reconheceu Kelly.
      -  Mary esteve fora por vrios meses, cuidando de uma tia idosa que se submetera a uma sria cirurgia.
      -   uma injustia! Aquele patife conseguiu acabar com a reputao de Beth, convencendo a todos que ela  uma mentirosa compulsiva - Anna exaltou-se.
      -  Julian gosta de manter a prpria reputao, mas no hesita em destruir a reputao daquelas que ingenuamente se envolvem com ele - informou Mary amargamente.
      Kelly se sentia zonza demais para pedir maiores explicaes, mas suspeitava de que havia um passado entre Julian Cox e Mary, e que esse assunto no era um
dos mais agradveis para ela.
      - O que precisamos fazer - sugeriu Mary firmemente -  atra-lo e faz-lo perder a cabea a ponto de demonstrar seu verdadeiro carter. O motivo que o levou
a deixar Beth no  mais segredo. Fez isso ao saber que nada lucraria com o casamento.
      - Concordo plenamente com Kelly - Anna interveio.
      - Devemos alertar a nova namorada e sua famlia, sobre o verdadeiro carter de Julian.
      Mary balanou a cabea.
      - Detesto dizer isso, mas podemos nos machucar se ele resolver usar contra ns a mesma ttica que usou contra Beth. A difamao. A ltima coisa de que precisamos
 que nos vejam como um bando de mulheres histricas e obcecadas por algum tipo de senso de injustia exagerado.
      Kelly assentiu. Mary estava certa.
      -  Se meu plano der certo - prosseguiu Mary - e dar, ele abandonar sua atual vtima to rpido quanto abandonou Beth, e pelo mesmo motivo.
      -  Seu plano? Que plano? - perguntou Kelly, curiosa.
      -  Ouam bem - disse Mary. - Armaremos um duplo ataque e o acertaremos onde ele  mais vulnervel. Por mero acaso, descobri que ele convence pessoas ingnuas
a investir em seus esquemas financeiros que, aparentemente, so bastante lucrativos, mas na verdade so armadilhas. Quando as pessoas descobrem isso,  tarde demais,
o dinheiro desapareceu.  assim que faz para manter seu confortvel estilo de vida.
      - Mas isso  estelionato! - protestou Kelly.
      Mary deu de ombros.
      -  Tecnicamente. Porm Julian sabe que suas vtimas preferem manter silncio e ficar no prejuzo em vez de denunci-lo. Escolhe-as bem, preferindo os mais
idosos, os mais vulnerveis e confiantes, pessoas que s percebem quem ele realmente  tarde demais.
      -  O homem  um demnio - revoltou-se Kelly.
      -  Mas vamos desmascar-lo - assegurou Mary. - Voc, Kelly, se tornar extremamente rica aps descobrir a existncia de um tio-av solteiro que, ao morrer,
deixou uma considervel fortuna em seu nome, mas foi aconselhada a manter o assunto em segredo. No entanto, inevitavelmente, a histria acabou se tornando pblica.
Sabemos de antemo que Julian a acha atraente, e tudo o que ter de fazer  deix-lo acreditar que realmente a atrai. O prprio ego e a ganncia de Julian faro
o restante.
      -  Mas no sei se conseguirei fingir que herdei uma fortuna... no posso mentir sobre algo assim - disse Kelly. - J pensou nos comentrios que circularo
na cidade quando souberem de minha suposta herana?
      -  Apenas Julian saber - assegurou Mary e, em seguida, olhou para Anna. - Assim como somente ele saber que Anna dispe de dinheiro disponvel para investimentos.
      Anna a fitou, incerta.
      - Julian sabe que no sou rica...
      - No se preocupem. Eu mesma cuidarei para que ele seja o nico a acreditar nessas fortunas imaginrias.
      -  Ser? Na certa ele ir...
      -  Ele acreditar, simplesmente porque precisa acreditar - garantiu Mary. - Est em apuros e se agarrar a qual quer chance que surgir que possa tir-lo dessa
situao. Julian no hesitar em trocar sua atual namorada por voc, Kelly. - E, olhando para Anna, acrescentou: - E na certa tentar atra-la para futuros investimentos.
Ento, iremos a pblico revelar o mentiroso e canalha que ...
      - Parece razovel - concordou Kelly. - E nos vingaramos dele por Beth.
      - E evitaramos que sua atual namorada acabe com o corao partido, e sem a herana a que tem direito - completou Anna protetoramente.
      - Ento, vamos em frente - disse Mary decidida.
      Kelly no estava totalmente convencida de que conseguiria se passar por uma rica herdeira, no entanto, o vinho a deixara zonza demais para contestar. Mas havia
algo que ela precisava saber.
      - Como pode ter tanta certeza de que Julian trocar sua atual namorada por mim?
      - Como j sabemos, ele a quer, e, alm disso, voc  sozinha na cidade e, teoricamente, desprotegida. Na certa achar que poder usar seu dinheiro como bem
entender - disse Mary sem rodeios. - Sua namorada atual tem um irmo, um obstculo entre ele e a herana. Julian est perdendo a credibilidade e no conseguir resistir
 isca que atiraremos em sua direo. No se dar a esse luxo.
      Kelly engoliu em seco, ansiosa. A isca a qual Mary se referia no era apenas a fortuna imaginria, mas ela. E pessoalmente ela achava Julian Cox o homem mais
detestvel, revoltante e indesejvel que conhecia...
      -  Mas se Kelly posar de herdeira rica, Julian certamente no vai se interessar por meu dinheiro - lembrou Anna.
      -  Julian  ambicioso e mesquinho - retrucou Mary. - No desprezar a chance de colocar as mos em mais dinheiro.
      -  Mas j me recusei a ajud-lo certa vez - lembrou-a Anna.
      - Voc pode mudar de idia - insistiu Mary. - Ouam bem vocs duas: deixem os detalhes comigo. Tudo o que quero  a concordncia de ambas e seu comprometimento.
Sei que poderei contar com vocs.
      Kelly e Anna trocaram olhares entre si.
      -  Sim, claro que pode - concordou Anna imediatamente.
      -  Pode contar comigo tambm - concordou Kelly, no to confiante. Algo lhe dizia que, por mais bem pensado que fosse o plano de Mary, o resultado poderia
no ser o esperado. Mas, naquele momento, sentia-se incapaz de contestar as afirmativas da amiga. Alm disso, ela tinha razo... Julian precisava ser desmascarado.
      As trs mulheres continuaram discutindo. E, enquanto isso, cresciam em Kelly as dvidas sobre a viabilidade do plano de Mary.
      - Bem, garotas... Preciso trabalhar amanh cedo. Portanto, se no se importam, que tal irmos embora? - sugeriu Mary, olhando para o relgio.
      Ao levantar-se, Kelly se deu conta da quantidade de vinho que ingerira. Para seu alvio, Anna parecia igualmente afetada pela bebida. Das trs, Mary era a
nica sbria. Ainda bem, era ela quem dirigiria o carro.
      Ao conduzir as duas amigas at o estacionamento, e, em seguida, at o carro, Mary percebeu que seria a nica culpada pela ressaca de ambas na manh seguinte.
Fora ela quem mantivera seus copos cheios de vinho. Mas a consolava saber de que fazia  coisa certa; devia isso a...
      Mary fechou os olhos. No devia pensar no passado, e sim no futuro... Julian Cox receberia exatamente aquilo que merecia.
      No conseguira acreditar quando soubera que Julian pretendia dar mais um de seus antigos golpes. Mas, dessa vez, no permitiria que ele obtivesse sucesso.
Dessa vez ele descobriria quanto o desejo de vingana de uma mulher poderia ser poderoso.
      Com um cuidado quase maternal, ajudou as amigas e cmplices a entrarem no carro. Pretendia cuidar delas daquele momento em diante. Ao v-las desajeitadamente
acomodadas no banco traseiro, Mary refletiu quanto era bom elas no terem o poder de ler sua mente. No restaurante houvera um ou dois momentos em que Kelly a pressionara,
mas ela conseguira se desviar das perguntas.
      -  Pobre Beth... - soluou Anna pesarosamente, enquanto Mary ligava o motor do carro.
      -  Pobrezinha... - concordou Kelly, piscando os olhos na tentativa de enxergar melhor.
      -  Sem essa de pobre Beth - ralhou Mary. - Ela teve muita sorte em no ter se casado com Julian. Desse modo ser mais fcil esquec-lo.
      Instintivamente, Mary olhou para o prprio dedo anular da mo esquerda. Em seguida, desviou o olhar.
      No banco traseiro do veculo, Kelly e Anna sucumbiram aos efeitos do vinho com o qual, deliberadamente, embriagara-as.
      No gostava do que estava fazendo... As duas eram to inocentes, to ingnuas...
     CAPTULO II
       Na manh seguinte, Kelly acordou com a boca seca e com uma dor latejante na cabea. Gemeu dolorosamente ao rolar na cama e verificar as horas no relgio sobre
o criado-mudo.
      Dez horas. No ouvira o despertador tocar. Ainda bem que, sendo domingo, a loja abriria um pouco mais tarde.
      Sentou-se na cama, e uma forte dor nas tmporas causou-lhe uma forte nusea.
      A culpada era Mary, que no sossegou enquanto ela e Anna no esvaziassem a garrafa de vinho.
      Mary...
      Tornou a deitar-se. Que pretendiam fazer? Telefonaria para ela e diria que no se sentia capaz de ir adiante com aquele plano.
      Ao estender a mo para o telefone, notou o piscar insistente da luz, indicando que havia mensagens gravadas na secretria eletrnica. De imediato ligou o aparelho
e se ps a ouvir os recados.
      - Kelly? E Mary. Telefonei para avisar que j entrei em ao. Descobri que Julian e a namorada iro a um jantar beneficente esta noite. Comprei ingressos para
voc e seu acompanhante... O evento ser em Ulston House.
      Sem hesitar, Kelly ligou para a casa da amiga, que rapidamente atendeu a ligao.
      - Mary, no havia nenhum acompanhante em nossos planos de ontem  noite, o que voc pretende...
      - Isso no importa. - Mary interrompeu a amiga. - Ser apenas uma garantia... Julian achar o desafio ainda mais irresistvel, vendo-a com outro homem. Tudo
o que tem a fazer  tentar seduzi-lo, mas lembre-se de que deve agir com sutileza.
      - Mas...
      Mary interrompeu o protesto da amiga mais uma vez e prosseguiu:
      - Sei quanto voc gosta de Beth, e sei que no nos decepcionar... Harry, este  o nome de seu acompanhante, entrar em contato com voc esta noite, s sete
e meia. Ele  meu
primo, e  de absoluta confiana. Claro que nada sabe sobre nosso plano. Pensa que voc precisa de algum para acompanh-la. Vrias pessoas influentes estaro presentes
ao jantar. Por enquanto  s, querida... Falarei com voc mais tarde.
      O que Mary estava fazendo? Kelly, olhou para o telefone, chocada. Ela at j havia comprado os ingressos, que estavam sendo vendidos a peso de ouro. Mary estava
indo rpido demais, e pretendia lhe dizer o que pensava disso, naquele mesmo momento.
      Respirou profundamente e, em seguida, pegou o telefone e discou.
      Mary demorou a atender. Instantes depois Kelly ouvir a gravao na secretria eletrnica.
      - Lamento, mas no posso atender. Deixe seu nmero e ligarei de volta amanh - anunciou Mary.
      Kelly desligou, transtornada.
      Talvez fosse melhor ir at a casa da amiga para tentar convenc-la a pensar melhor. O que na noite anterior lhe parecera um plano razovel, agora se tornara
totalmente arriscado, para no dizer perigoso. Primeiro, iria contra todos seus princpios. Segundo, como seria capaz de fingir que se sentia atrada por Julian
Cox, quando o achava repugnante? No. Jamais o convenceria a romper com a noiva para ficar com ela.
      Fisicamente, Julian Cox era at bastante atraente. Kelly no entanto, jamais se deixaria levar pelas aparncias. Alm disso, havia algo em sua atitude, no
somente em relao a Beth, mas a ela prpria, que desde o incio a deixara em estado de alerta. Fizera o possvel para manter-se afastada daquele homem e, quando
o encontro era inevitvel, agia de forma fria e distante.
      Como convenc-lo de que agora, de repente, achava-o interessante, um verdadeiro smbolo sexual?
      No conseguiria. Fora loucura concordar com aquele plano, mas concordara, e agora, algo lhe dizia que no seria fcil convencer Mary a desistir de tudo e pensar
em outro modo de desmascarar Julian.
      E quanto a Anna? Ser que ela pretendia ir em frente com aquela insensatez? Kelly suspirou. Talvez, a melhor maneira de ajeitar as coisas, de convencer Mary
de que plano era muito perigoso, fosse comparecer ao jantar. Estaria segura. Julian no faria a desfaatez de assedi-la novamente, no depois do modo como o dispensara
na primeira vez. Talvez, se aquela primeira ao do plano falhasse, Mary se convencesse de ter feito o melhor possvel, e, com sorte, esqueceria o assunto. E ela
no precisaria arriscar-se a melindr-la. A grande revolta de Mary demonstrava seu enorme carinho e afeto por Beth.
      Onde estariam as aspirinas? Kelly esvaziou a caixa de remdios do armrio sem encontr-las, mas lembrava-se de recentemente ter comprado um vidro. De repente
lembrou-se de ter dado os comprimidos a Beth, quando a traio de Julian a deixara com uma insuportvel dor cabea, de tanto chorar.
      Kelly caminhou at a pequena cozinha e l colocou uma chaleira com gua para ferver.
      O apartamento sobre a loja era dplex. No andar superior situavam-se os quartos, dela e de Beth, e o banheiro que ambas partilhavam. No andar de baixo havia
uma confortvel sala de estar, uma igualmente confortvel sala de jantar e a cozinha.
      L fora, nos fundos da propriedade, ficava um pequeno mas bem cuidado jardim, e uma garagem que Kelly transformara em seu ateli. Pintar porcelana e confeccionar
caixas laqueadas eram a sua especialidade.
      Antes de juntar-se a Beth na sociedade, Kelly vivia na Esccia, na casa dos pais, e trabalhava como autnoma. Fornecia suas criaes para uma loja de presentes,
em Londres.
      Kelly tomou um rpido desjejum e foi para a loja. Naquele mesmo dia, s trs da tarde, com a loja ainda lotada de compradores e visitantes, Kelly percebeu
que s teria tempo livre para comer um rpido sanduche. Teria que esquecer a visita que pretendia fazer a Mary.
      Ironicamente, aquele domingo estava sendo um dos mais movimentados desde a inaugurao da loja. Kelly no apenas vendera vrias de suas criaes, como tambm
fora contratada por um visitante japons para confeccionar uma boa quantidade de peas. Ele ficara bastante interessado em suas caixas laqueadas.
s quatro da tarde, aps ter gentilmente acompanhado o ltimo cliente  sada, Kelly comeou a entrar em pnico. No apenas pelo fato de ter de ir ao jantar
e participar do plano de Mary, mas tambm por no ter em seu armrio algo apropriado para a ocasio. Ela e Beth haviam investido todas as economias na loja, alm
de terem recorrido a um emprstimo bancrio,  ajuda dos pais, e do av de Beth. Anna tambm insistira em emprestar-lhes algum dinheiro para cobrir as despesas extras
que surgissem. A loja comeava a dar lucro, mas nada que garantisse a compra de um vestido de gala.
      Normalmente, sabendo que teria um compromisso como aquele, Kelly procuraria algo interessante em antiqurios e brechs, algo que pudesse ser reformado para
a ocasio. Mas no havia tempo, e o melhor que possua era o vestido e casaco que comprara para o casamento de seu irmo. O traje, embora elegante, no era apropriado
para um jantar beneficente.
      Aps certificar-se de que havia trancado a porta da loja, e de que o alarme estava ligado, Kelly subiu para o apartamento. No entendia por que concordara
com o plano de Mary. Ela sempre era to precavida, teimosa e autoconfiante. Teimosa demais, como seu irmo a acusava, embora afetuosamente. Beth era a mais gentil
e a mais facilmente manipulvel das duas.
      Certamente, ela se conhecia bem. Era uma mulher de vinte e quatro anos, adulta, educada, motivada e que, embora sonhasse com um parceiro carinhoso e filhos,
no tinha pressa em constituir famlia. O homem com quem eventualmente viesse a se casar, teria de aceitar e respeitar sua vontade de ser tratada como igual. Claro
que esperaria dele as mesmas qualidades de um grande amigo: lealdade, honestidade e bom humor, alm de interesses em comum. Esse homem teria de valorizar e respeitar
seu trabalho e no deveria, como via acontecer com freqncia com outros casais, tentar impedi-la de fazer o que lhe agradava.
      Certa vez perguntara a Beth, durante uma conversa em que debatiam o relacionamento entre casais, o que faria se, por acaso, se apaixonasse por algum que no
se enquadrava em seus ideais, e ela prontamente respondera que nunca correria esse risco.
      Pobre Beth. O que estaria sentindo agora? Nunca a vira to arrasada e infeliz... Ela realmente acreditara no amor de Julian Cox.
      Desde o rompimento dos dois, Kelly ouvira rumores de que sua amiga no fora a primeira mulher que ele enganara. Decididamente, Beth estava melhor longe dele.
Arrepiou-se ao lembrar-se da noite em que chegara mais cedo em casa e encontrara a amiga deitada na cama, quase inconsciente. No hospital, Beth lhe assegurara de
que tinha tomado todos aqueles comprimidos por acidente, e lhe implorou para que no contasse a ningum. Mesmo contra vontade, Kelly concordou em calar-se. Felizmente,
chegara a tempo de evitar uma tragdia.
      Kelly lentamente tomou seu caf. Mary no estaria lhe pedindo demais? No gostava do papel que teria de representar. Que mulher gostaria? Mas era um modo de
dar a Julian Cox um final justo e merecido. Aquele pensamento reconfortante, no entanto, no resolvia o problema do que vestir para ir ao jantar.
      O evento era o assunto do momento na cidade. Seria o acontecimento social do ano. A famlia Varsey a quem pertencia a manso georgiana onde o evento se realizaria,
era sua proprietria havia trs sculos. E, apesar do alto preo, os ingressos haviam desaparecido em menos de uma semana, o que tornava mais extraordinrio ainda
o fato de Mary ter conseguido dois deles com tanta facilidade.
      Kelly lembrou-se da excitao e do entusiasmo de Beth, quando Julian lhe disse que havia comprado ingressos para aquele mesmo baile.
      - Preciso comprar algo deslumbrante para usar. No ser apenas um evento social para Julian, mas uma oportunidade de realizar grandes negcios - contou-lhe
Beth quase sem flego.
      Encantava-lhe a possibilidade de comparecer a um evento to importante socialmente acompanhada de Julian Cox e ser apresentada a todos como sua noiva, mas
agora, ironicamente, outra mulher estaria ao lado dele.
      - Lembre-se de que essa moa, a tal noiva de Julian, pode ser mais uma vtima da ganncia dele, exatamente como Beth fora - dissera Mary na noite anterior,
quando Kelly comentara que no conseguia entender como uma mulher podia ser to ingnua a ponto de se envolver to facilmente na conversa de um homem como aquele.
      Kelly suspirou, entristecida. Ela jamais conseguira descobrir exatamente com que tipo de negcios Julian estava envolvido. Ele costumava gabar-se da prpria
influncia entre pessoas importantes e dos acordos altamente lucrativos que fazia com alguns figures da alta sociedade. Adorava falar em pblico no celular que
sempre trazia consigo e dirigia um BMW novo e veloz, mas que em nada condizia com seu estilo de vida. Ele vivia em um apartamento surpreendentemente pequeno, situado
em um bairro nada atraente, nos arredores da cidade.
      Agora ela entendia por que ele pedira permisso para usar o endereo da loja, em um bairro bem mais sofisticado, para receber sua correspondncia. Kelly no
gostara de saber que Beth havia dado permisso. No entanto, temendo melindrar a amiga, preferiu no contrari-la.
      Naquele instante, a campainha tocou, e Kelly foi atender meio a contragosto.
      No esperava visitas. Embora ela e Beth houvessem feito amizades na cidade, alm de Anna e de Mary, ningum mais poderia ser considerado ntimo. Intrigada,
Kelly desceu a escada para abrir a porta que dava para a rua.
      Um rapaz encontrava-se  soleira, segurando uma caixa, e havia uma van de entregas parada junto  calada.
      - Kelly Harris? Encomenda para a senhorita... - avisou ele, estendendo-lhe um recibo. - Assine aqui, por favor...
      Kelly o fitou, hesitante, enquanto pegava o recibo para assinar.
      O rapaz entregou-lhe a caixa, que era surpreendentemente leve. Curiosa, Kelly agradeceu e fechou a porta. Carregou a caixa para o quarto e sentou-se na cama
para abri-la.
      Havia um envelope sobre o pacote embalado com um delicado papel de presente. Kelly o abriu e de imediato reconheceu a caligrafia.
      Cara Kelly,
      Precisar disto para usar hoje  noite.
      Boa caada!
      Mary.
      Kelly afastou o papel de seda e encontrou um vestido que a fez perder o flego. Duas camadas de tecido, uma cor de caramelo, a outra um tom um pouco mais escuro,
quase ameixa, na mais pura seda chiffon, escorregou por entre seus dedos. Erguendo-o no alto, Kelly correu para a frente do espelho, segurando-o contra si mesma.
      Tanto a cor quanto o modelo eram perfeitamente adequados a ela. Os tons do chiffon combinavam de modo perfeito com a cor de sua pele, e chamavam a ateno
para seus olhos, que pareciam mais escuros do que de costume. A cintura alta, esvoaante e provocante, e o corte maliciosamente sedutor, impossibilitavam o vestido
de ser usado por uma mulher que no estivesse bem consigo mesma e com sua sensualidade. Mary no podia ter escolhido um vestido mais adequado  situao. No era
preciso olhar a etiqueta para saber que custara uma fortuna.
      Maravilhada, Kelly tocou o fino chiffon. Embora o vestido fosse inteiramente forrado, o tecido do forro era cor da pele. Km um local pouco iluminado, daria
a impresso de ser transparente.
      Mary conseguira at adivinhar seu manequim, pensou Kelly sentindo uma ponta de remorso. Aps estender cuidadosamente o vestido sobre a cama, ela voltou a olhar
dentro da caixa. Sob mais uma camada de papel, encontravam-se uma estola, tambm de seda, sapatos de salto alto e uma pequena bolsa de cetim.
      Mary pensara em tudo, admitiu ela ao abaixar-se para experimentar os sapatos. Felizmente, ela possua lingerie nova para usar sob o vestido, um presente de
aniversrio que recebera da cunhada, e o colar de prolas que havia pertencido a sua av materna, e ganho da me ao completar dezoito anos. Ficaria perfeito.
      Era um vestido de sonhos, pensou ela dez minutos depois, ao pendur-lo cuidadosamente no cabide. Pena que seria usado em uma noite que tinha tudo para se transformar
em um terrvel pesadelo.
      Kelly verificou as horas no relgio. O primo de Mary viria busc-la s sete e meia, portanto precisava comear a se preparar.
      Do outro lado da cidade, mais algum se preparava para ir ao jantar daquela noite. Exatamente como Kelly, Steve Mass iria sob protesto. Aps muita insistncia
de sua irm, embora relutante, ele concordara em comparecer ao evento.
      - Por favor, Steve, Julian quer muito v-lo no jantar - ela implorara. - Pelo que pude perceber, tem um pedido a lhe fazer.
      Diante de tamanha insistncia, Steve comeou a suspeitar que o namorado dela estivesse  procura de um patrocinador para algum novo negcio. Julian Cox j
havia insistido em discutir o assunto, porm Steve se esquivara. Aquilo no o agradava, afinal, mal conhecia o sujeito. Alm disso, Eve dera algumas dicas de que
ele pretendia pedi-la em casamento, e isso aumentava sua preocupao, pois com vinte e um anos, Eve na certa no precisaria de sua aprovao para se casar. Desde
a morte de seus pais havia quinze anos, Steve vinha sendo um pai para ela, e os pais so notoriamente conhecidos por no quererem partilhar o afeto de suas filhas
com outro homem. Aos trinta e quatro anos, Steve era maduro o suficiente para reconhecer que, qualquer homem que pretendesse se casar com sua irm, merecia suas
piores suspeitas e ressentimentos. E havia algo em Julian Cox que Steve simplesmente no tolerava. O homem era excessivamente seguro de si, habilidoso e agradvel
em exagero. Eve o conhecera recentemente, aps eles terem chegado  cidade, havia apenas algumas semanas.
      Cansado da agitao da cidade grande, Steve sonhava com um ritmo de vida menos estressante. O trabalho empolgante e a vida social intensa no deixavam de ser
excitantes, mas tambm cansativos. Ultimamente, por vrias vezes ele se vira invejando o estilo de vida adotado por alguns de seus amigos, que viviam tranqilamente
no campo, ao lado da esposa e dos filhos. Resolveu ento mudar-se para o interior. Vendeu sua parte da sociedade que tinha na firma de gerenciamento de fundos de
penses e transferiu-se para Rye-on-Averton, onde pretendia montar um negcio igual ao que deixara para trs, porm menor.
      - Que eu saiba, quem costuma ter esse tipo de crise existencial so as mulheres, no os homens - brincou Eve, aps Steve ter comunicado a mudana radical que
faria em sua vida. - Voc deve estar sentindo falta de algum para cuidar, agora que me tornei adulta.
      Talvez ela tivesse razo. Steve no tinha certeza, sabia apenas que a perspectiva de morar em uma pequena cidade do interior, de repente lhe pareceu irresistivelmente
atraente.
      Quanto a querer ter uma esposa e filhos, durante os ltimos anos, no lhe faltaram oportunidades de se casar. Steve era atraente, mais alto que a maioria dos
homens e dono de um fsico invejvel. Possua cabelos escuros com alguns fios grisalhos nas tmporas. Sua expresso sria era suavizada pela covinha no queixo, e
o riso alegre e fcil acentuava o brilho intenso de seus olhos azuis.
      Eve costumava brincar com ele, fingindo estar revoltada.
      - No  justo. Voc herdou todo o carisma de nossa famlia, e no deixou nada para mim... As mulheres esto sempre correndo atrs de voc, como abelhas, atradas
pelo mel.
      - Isso nada tem a ver com carisma, sua tolinha, e sim com dinheiro...
      Alm do dinheiro que Steve e Eve haviam herdado dos pais, ele administrava um negcio bastante lucrativo, algo que lhe permitiria, se quisesse, parar de trabalhar
e viver confortavelmente pelo resto de seus dias.
      Talvez, por sua culpa, Eve fosse to ingnua, concluiu ele. Sendo seu irmo, pai substituto e protetor, procurou sempre mant-la afastada dos perigos da vida.
E agora, todos os instintos lhe diziam que Julian Cox no era confivel. No entanto, encantada como estava, Eve no lhe daria ouvidos, se dissesse uma s palavra
contra ele.
      - Voc no o conhece to bem quanto eu... Julian  encantador - declarou ela passionalmente, quando, Steve tentou alert-la. - Procura ser gentil mesmo com
aqueles que no merecem isso. Quando o conheci, ele estava sendo perseguido por essa mulher horrvel, que mentia a todos, dizendo que eram comprometidos. Ela o seguia
onde quer que fosse, telefonava insistentemente e passava o dia inteiro diante do prdio onde ele mora. Tentou at organizar
uma festa de noivado, alegando que havia sido pedida em casamento...
      Steve limitou-se a erguer a sobrancelha e Eve continuou:
      - No entanto, apesar de toda a dor de cabea que a situao lhe causava, Julian no teve coragem de entreg-la  polcia. Em vez disso, tentou conversar com
ela, faz-la entender... Chegou a lev-la para jantar fora, por piedade. Infelizmente, no conseguiu convenc-la a deix-lo em paz. Por fim, Julian chegou  concluso
de que a nica maneira de faz-la desistir de persegui-lo seria v-lo a meu lado. Felizmente, parece que funcionou.
      Ao notar a intensidade da paixo na voz da irm, Steve concluiu que, naquele momento, no seria prudente dizer o que pensava de Julian Cox. O homem de fato
agradava o sexo feminino, levando-se em conta o nmero de mulheres que mencionava em suas conversas.
      Steve no tinha a menor vontade de ir ao jantar beneficente. Em vez disso, preferia fazer uma visita a Nan.
      Nan, av materna de ambos, tinha quase oitenta anos, mas continuava lcida e ativa, fazendo parte integrante da comunidade de Costwall onde morava. Pensando
na av, ele lembrou-se de algo que precisava fazer por ela.
      Nan mantinha na cristaleira, algumas peas que restaram de um antigo jogo de ch de porcelana, pintado  mo, presente de casamento que recebera dos bisavs.
Steve sabia que um de seus maiores sonhos era tornar a ver o jogo completo. Durante anos, ele tentara encontrar as peas que faltavam, mas sem sucesso. Segundo alguns
fabricantes de porcelana em Staffordshire, a nica maneira de completar o aparelho seria comprar as peas faltantes em branco e mandar pint-las  mo.
      - Produzimos algumas peas do mesmo estilo, mas no com esses detalhes delicados pintados na lateral - dissera-lhe o diretor da Hartwell. - Na certa encontrar
algum que trabalhe com pintura em porcelana. Nosso pessoal tem habilidade, mas no tem tempo disponvel para fazer isso. Pelo que me descreveu, suspeito que cada
uma das peas trazia uma figura diferente e alegrica da mitologia grega. Precisar encontrar uma pessoa extremamente habilidosa e criativa para fazer o trabalho.
      O diretor ento lhe sugeriu que entrasse em contato com uma jovem particularmente talentosa que, na poca de estudante, fizera alguns trabalhos para ele. Para
sua surpresa, ela morava e trabalhava em Rye-on-Averton.
      Seu telefone e endereo encontravam-se anotados em um pedao de papel sobre sua escrivaninha. A primeira coisa que faria pela manh seria contat-la. O aniversrio
de oitenta unos de Nan se aproximava, e Steve queria surpreend-la presenteando-a com as peas faltantes do aparelho de ch.
      Embora, devido a doena do marido, Nan no houvesse cuidado dos netos em tempo integral aps a morte de seus pais, ela sempre estivera presente, pronta para
lhes oferecer carinho e amor.
      Nan era astuta nos negcios, e fora ela quem encorajara Steve a fundar sua primeira empresa, apoiando-o, tanto emocional quanto financeiramente.
      Apesar da idade avanada, ela ainda demonstrava muito interesse por tudo o que acontecia, e Steve suspeitava de que ficaria to surpresa quanto ele ao saber
do namoro de Eve.
      Naquela noite, Eve certamente esperava que seu irmo fingisse que gostava de Julian Cox. Pelo bem dela, ele faria isso.
      Eve podia ser tmida e calada, mas era forte e determinada, alm de leal, especialmente em se tratando dos fracos, dos oprimidos e injustiados. A ltima coisa
que Steve queria era despertar seu instinto protetor em relao a Julian Cox, Na verdade, ele tinha esperanas de que cedo ou tarde Eve percebesse o tipo de homem
que era seu namorado.
      Steve olhou para o relgio. Eve estava se arrumando, e se ele no quisesse se atrasar, devia subir at seu quarto e fazer o mesmo.
      Na cozinha de uma casa situada a uns cinco quilmetros do centro da cidade e com uma linda vista para o vale e os campos verdejantes estendendo-se em trono
dela, Mary Lawson voltou-se para o primo.
      - Voc sabe exatamente o que fazer, no , Harry?
      Ele suspirou e assentiu.
      - Sei... Tenho de pegar Kelly s sete e meia e acompanh-la ao jantar beneficente. Se por acaso Julian Cox sei engraar com ela, devo fingir estar enciumado,
mas nada farei para det-lo.
      - No se. Quando - corrigiu Mary. - E lembre-se: haja o que houver, no importa quanto Julian a pressione, voc dever levar Kelly de volta para casa em segurana.
      - Voc devia fazer algo em relao a esse seu instinto maternal - sugeriu Harry, porm, ao se dar conta do que dissera, ele arrependeu-se. - Desculpe-me, Mary,
no tive inteno...
      - Tudo bem - disse ela friamente, a expresso parcialmente escondida pelos cabelos loiros.
      Sete anos mais novo, Harry sempre respeitara a prima. O pai dela e o dele eram irmos, e Mary costumava ir  fazenda deles enquanto Harry crescia. Ficou surpreso
quando soube que, aps a morte do pai, Mary pretendia continuar vivendo em uma cidade to pequena e pacata quanto Rye-on-Averton. Mas enfim, ela no era do tipo
previsvel e fcil de se entender. Era uma mulher determinada, com uma inteligncia acima da mdia, e dona de idias e raciocnios talhados para os negcios. Talvez
por isso, Harry sempre a invejara.
      Apenas uma vez a viu perder o controle da situao, justamente quanto suas emoes falaram mais alto que a razo. Harry no se atrevia a mencionar aquele fato,
verdadeiro tabu em suas conversas, pois preferia no provocar a ira da prima.
      - Voc gostar de Kelly... Mas agora v. Ela o espera - informou Mary, acrescentando de modo quase que inconseqente: - Estou certa de que ela se dar muito
bem aqui em Rye-on-Averton, e sua me, Harry...
      - J sei. O sonho de minha me  que eu me case e tenha muitos filhos. - Harry terminou por ela antes de ressaltar:
      Voc  mais velha do que eu, Mary, e ainda no se casou. Talvez, ns dois no tenhamos nascido para o casamento...
      - No diga bobagem... Claro que voc vai se casar. Precisa pensar na fazenda. Est nas mos de nossa famlia h centenas de anos, e voc ter herdeiros para
dar continuidade a isso.
      Claro. Mas s quando se sentisse pronto para tal responsabilidade, pensou Harry. E, se Deus o ajudasse, se casaria com algum que ele prprio escolhesse. Embora
tentasse disfarar, pois tal idealismo no combinava com o fazendeiro moderno que era, Harry era um romntico, algum que queria desesperadamente se apaixonar. Porm,
no conhecia ningum que lhe despertasse uma emoo to intensa.
     CAPTULO III
      Kelly passou os dedos gentilmente pela saia vaporosa, satisfeita com a prpria aparncia. O vestido de fato lhe caa bem.
      Ela e Harry, primo de Mary, aguardavam na fila de entrada, esperando a vez de serem recepcionados pelos anfitries. Gostara de Harry desde o momento em que
o vira chegar para apanh-la. Era um homem forte, de aparncia saudvel e tipicamente inglesa, e inspirava confiana. T-lo ao lado no s a fazia sentir-se mais
tranqila, como tambm intensamente feminina e protegida.
      Ela sorriu, notando que Harry a observava.
      - Parabns pela escolha do vestido. Combina perfeitamente com voc - disse ele.
      - Foi sua prima quem o escolheu... Na verdade, sinto-me como a Cinderela, preparada para ir ao baile pela fada-madrinha... Embora... - Ela deu de ombros e
calou-se. No havia razo para comentar suas dvidas com Harry.
      Ao se aproximarem dos anfitries, Kelly sorriu notando os olhares que o lorde, primeiro tenente do condado, lanava em sua direo.
      "Tudo bem, no sou eu, mas sim o vestido", desejou dizer  esposa do lorde, que subitamente ficou de mau humor. No entanto, lembrou-se de que naquela noite
ela deveria agir como uma femme fatale, e aceitou o cumprimento do lorde com um sorriso radiante. O homem tinha aproximadamente sessenta anos de idade, e sem dvida
ainda era um homem viril, a julgar pelo modo insistente de olhar.
      Afinal, talvez, a noite no seria um desafio to grande para seu talento dramtico.
      Assim que entraram no amplo salo iluminado, Kelly aceitou uma taa de champanhe da bandeja de um dos garons. Para relaxar, pensou. Ao olhar em torno do lugar,
ela entendeu a razo do preo exorbitante dos convites. Ao invs de separar uma ala da manso para o evento, como convencionalmente se fazia, os anfitries permitiam
que as pessoas circulassem livremente pelos demais sales elegantemente decorados. Seu prprio vestido, inspirado na realeza, no podia ser mais apropriado, pois
combinava perfeitamente com a decorao.
      Tocando o brao de Harry, ela apontou para um armrio laqueado em estilo chins.
      - Veja que bela pea de decorao. Eu gostaria de observar mais de perto - disse baixinho.
      Harry galantemente a conduziu at l, abrindo caminho por entre as pessoas que lotavam o salo.
      Ao chegar aonde desejava, Kelly abruptamente estancou. A menos de dois metros de distncia, encontrava-se Julian Cox. Ele conversava animadamente com uma bela
jovem, fisicamente bastante semelhante a Beth, parecendo tambm ter a mesma natureza gentil que caracterizava sua melhor amiga. J o homem que acompanhava o casal,
alto, dono de ombros largos e musculosos, ar srio e preocupado, era irresistivelmente msculo, concluiu Kelly prendendo o flego.
      Como que sentindo seu olhar, o desconhecido virou a cabea, e a fitou de modo intenso. O corao de Kelly disparou dentro do peito. Seus olhos incrivelmente
azuis a fitaram de modo to penetrante que pareciam querer ler seus pensamentos.
      Ela lembrou-se de que no estava ali para fantasiar romances com desconhecidos; sua misso era bastante especfica, e no devia permitir que nada ou ningum
a desviasse de seu propsito.
      Kelly arriscou um segundo olhar, e notou o modo carinhoso e protetor com que o desconhecido se dirigia  jovem loira e delicada entre ele e Julian. Seria aquela,
a nova vtima de Julian? Ou ela estaria com o outro homem? Estariam aqueles olhos azuis e ardentes avisando que seu dono no estava disponvel? Ou sua inteno era
apenas atiar a curiosidade das moas?
      Bem, sem dvida, antes que a noite terminasse, ela acabaria descobrindo. Julian ainda no a vira, no entanto...
      Kelly tomou flego e discretamente se moveu, entrando em seu campo de viso.
      - Voc est bem? Est com o rosto em brasa. - Ela ouviu Harry perguntar com preocupao. - No quer ir para o terrao? Est muito cheio aqui, e quente...
      Kelly sorriu. O afogueado em seu rosto nada tinha a ver com a temperatura no salo, e sim com sua reao fsica e emocional  aparncia mscula e sensual do
desconhecido.
      Julian voltou-se para falar com algum e no a viu. Kelly no se deu por vencida; deu mais alguns passos por entre a multido. Harry ficou para trs, preso
em meio ao vai-e-vem dos convidados.
      Julian podia no t-la visto, admitiu ela aps olhar rapidamente para o trio, mas ele, quem quer que fosse, certamente a vira. Kelly sentiu um arrepio percorr-la
e vibrou de emoo ao perceber que estava sendo intensamente observada por ele.
      Porm, mais uma vez, lembrou-se do motivo que a levara at ali e do papel que deveria representar. Mas a tentao de jogar tudo para o alto, e voltar a ser
a Kelly de sempre, era irresistvel.
      No entanto, de repente, como se fosse obra do destino, o caminho entre Kelly e Julian se abriu.
      - Julian... Que bom v-lo por aqui... - disse ela.
      Teria soado convincentemente convidativa? Prendeu o flego enquanto Julian voltava-se para encar-la, a suspeita em seus olhos dando lugar  apreciao masculina.
      -- Kelly! Mas que surpresa...
      -  Agradvel, eu espero - disse ela, aproximando-se e propositadamente voltando as costas para a garota loira que em silncio a observava.
      -  Por um momento, julguei que tivesse esquecido de mim...
      -  Impossvel - assegurou Julian, flertando abertamente com ela.
      O homem era um verdadeiro canalha, decidiu Kelly.
      - Est sozinha? - perguntou ele em tom zombeteiro.
      Com um gracioso meneio de cabea, Kelly soltou uma risadinha sensual.
      -  Claro que no - retrucou, sua voz e olhar enfatizando que era do tipo de mulher que jamais estaria sozinha. - Voc est muito bem, Julian, bem demais...
      - Ento, somos dois - disse Julian.
      - Julian, creio que deveramos ir para a mesa.
      A voz profunda e mscula, fria e autoritria, interrompeu-os e chamou a ateno de Kelly.
      De perto, ele era ainda mais atraente. Talvez por estar assumindo uma nova personalidade, Kelly sentiu uma forte atrao por aquele homem. Reconheceu isso
ao sustentar seu olhar penetrante. No se lembrava de algum dia ter ficado to impressionada, fsica e emocionalmente, por algum.
      - To depressa? - perguntou, fazendo beicinho, um pouco desconcertada ao notar com que facilidade assumia o papel de sedutora. - Nem sequer fomos apresentados...
      Kelly sentia a surpresa de Julian diante de seu comportamento, que ela prpria estranhava. Enquanto ele relutava em atender seu pedido, o desconhecido adiantou-se:
      - No vai nos apresentar a sua amiga, Julian?
      - Bem... Eve, Steve, quero lhes apresentar Kelly Harris, uma velha amiga. Kelly, estes so os irmos, Eve e Steve Mass.
      Enquanto aguardava que Julian desse maiores detalhes a respeito de seu relacionamento com os dois, Kelly percebeu pela expresso nos olhos de Steve Mass que
ele no parecia aprovar sua atitude.
      Bem, pelo menos, teve uma de suas dvidas esclarecidas, concluiu ela quando Harry parou a seu lado, justamente quando Steve Mass lhe dava as costas e se afastava.
      Os irmos Frobisher, dissera Julian.
      - Estamos na mesa doze - informou Harry, tentando abrir caminho para ambos atravessarem por entre a multido.
      A mesa doze era bem posicionada, com uma boa viso do salo e perto das portas que davam para o terrao.
      Os Fortescue, um casal de meia-idade, e sua filha tomavam seus lugares  mesa doze, para dez pessoas, e um outro casal acomodava-se nas cadeiras do lado oposto
ao de Kelly e de Harry. Restavam trs lugares vazios a sua esquerda e, discretamente, Kelly inclinou-se para ler uma das papeletas posicionadas diante dos pratos.
Seu corao disparou. "Sr. Julian Cox", na papeleta seguinte ela leu: "srta. Eve Frobisher", e na ltima, "sr. Steve Mass". No fazia idia de como Mary conseguira
coloc-los juntos na mesma mesa, mas no havia dvida de que ela se revelara uma excelente estrategista, uma "expert" na arte dos subterfgios.
      - Kelly, estamos na mesma mesa! Que coincidncia! - exclamou Julian, com evidente prazer ao em v-la.
      Kelly permaneceu calada, limitando-se a sorrir. Meia hora depois, quando todos haviam sido servidos do prato principal, Kelly chegou  concluso de que Julian
era ainda mais desprezvel do que havia imaginado. Ignorando totalmente a namorada, ele passou a fazer-lhe elogios cheios de segundas intenes, um tipo de abordagem
que Kelly achou terrivelmente desagradvel.
      Com a conscincia pesada e falando mais alto que o senso de dever, ela se inclinou para gentilmente perguntar a Eve, h quanto tempo a jovem estava na cidade,
e se estava gostando. Ela hesitou um pouco antes de responder.
      - Chegamos h pouco mais de um ms... A cidade  muito agradvel.
      Kelly notou que, antes de responder, a moa olhara para o irmo, pedindo seu apoio. Sentia pena da jovem. Notou sua humilhao enquanto Julian lhe dirigia
elogios, deixando claro que a achava atraente. Era mais uma vtima daquele canalha.
      - Em que trabalha? - perguntou Kelly, tentando distra-la um pouco, mas arrependeu-se logo em seguida, porque, antes de responder, Eve olhou aflita para o
irmo.
      - No momento no estou trabalhando... Formei-me em belas artes, mas no...
      Sua voz enfraqueceu, e Julian a interrompeu com orgulho.
      - Eve no precisa trabalhar... No , querida?
      Enquanto falava, Julian pegou a mo da jovem e a levou aos lbios, beijando-a de forma exagerada e falsa. Mas, a julgar pela expresso sonhadora de Eve, ela
no parecia notar nada de errado na atitude do namorado.
      O que ela diria se soubesse que, enquanto Julian a beijava, com a mo livre ele tentava acariciar os joelhos de Kelly? Kelly afastou-se o mais que pde para
evitar aquele contato.
      Julian era repulsivo, concluiu ela. Kelly dirigiu-se a Harry na clara inteno de convenc-lo a sair dali mas se calou quando, inesperadamente, Steve Mass
interveio.
      - Eve trabalha para mim. E quanto a voc? Qual  sua ocupao?
      Antes que Kelly pudesse responder, o mestre de cerimnias pediu silncio, porque os anfitries fariam um pequeno discurso. Kelly respirou aliviada quando se
viu livre da mo de Julian. Detestava-o mais a cada minuto. O modo como h pouco ele se referira  namorada, a expresso ambiciosa em seu rosto, fez Kelly de imediato
se convencer de que mais uma vez ele tentava dar o golpe do ba. Como Beth, Eve obviamente era ingnua e crdula demais para enxergar seu verdadeiro carter. Mas,
com certeza, seu irmo era mais esperto.
      Embora Steve ouvisse em silncio a conversa de Julian, era bvio que analisava atentamente a tudo e a todos. Seria pretenso sua imaginar que ele a analisava
com especial ateno?, Kelly questionou-se. A certa altura, antes de o mestre de cerimnias ter anunciado o discurso dos anfitries, ela tivera a impresso de ter
visto o olhar de Steve atravessando a mesa como um raio, concentrando-se justamente na mo que Julian pousava em sua perna. Apesar de estar acontecendo contra sua
vontade, Kelly sabia que Steve devia estar pensando o pior a seu respeito.
      Os discursos chegaram ao fim, e o mestre de cerimnias anunciou que em seguida daria incio ao baile. Com sorte, Kelly ficaria livre de Julian, uma vez que
ele estaria ocupado, danando com Eve.
      - Precisa retocar o batom e pentear os cabelos, querida - Kelly ouviu-o dizer a Eve. Em seguida, ele voltou-se em sua direo. - Infelizmente, Eve no entende
muito de moda. Mas vejo que voc no pensou em economizar quando comprou seu vestido... Est maravilhosa - comentou Julian.
      Pelo brilho que viu em seus olhos, Kelly percebeu que a notcia de sua suposta herana j chegara aos ouvidos dele.
      Enquanto falava, seu olhar mantinha-se fixo nos lbios sedutores de Kelly.
      - Bem, a pobrezinha no  to bonita quanto voc... Algum j disse que sua boca  incrivelmente sensual?
      Kelly precisou se controlar para que a ira em seus olhos no a trasse. A revolta que sentia fazia seu sangue ferver. Julian era um canalha. Como se atrevia
a agir de maneira to insultuosa diante da namorada? No admirava que Eve parecesse to infeliz. Mas isso no era motivo para que seu irmo a fuzilasse com os olhos.
Ela no era responsvel pela atitude de Julian.
      - Vou at o toilette - Kelly avisou, sorrindo ternamente para Eve. - No quer vir comigo?
      - Ah, claro...
      Eve sorriu aliviada e levantou-se para acompanh-la.
      - Conhece Julian h muito tempo? - perguntou Eve, timidamente, ao chegarem ao luxuoso toilette.
      - Mais ou menos...
      - Ele  uma pessoa especial, no acha? - elogiou a jovem, os olhos brilhando de emoo, e a expresso do rosto mostrando quanto o amava.
      Kelly sentiu um aperto no corao, e precisou resistir ao impulso de dizer o que realmente pensava de Julian.
      - E voc? Conhece-o h muito tempo?
      - Bem, no... - Eve tomou flego antes de dizer apressadamente. - Ele me pediu em casamento. Tudo aconteceu to depressa, que parece um sonho. Estar loucamente
apaixonada  um pouco assustador, no acha? - Ela sorriu. - E a primeira vez que me apaixono... Steve acha que ainda  cedo para pensar em casamento... Julian s
vezes fica bravo comigo, dizendo que dou ateno exagerada a meu irmo. Mas ele vem cuidando de mim desde que perdemos nossos pais... Voc  a primeira amiga de
Julian que conheo - confidenciou ela, mudando de assunto. - Ele diz que prefere me manter somente para ele, por um tempo... - Eve sorriu e ruborizou. - Ele  romntico
e carinhoso.
      Claro, Kelly teve vontade de concordar. To romntico e carinhoso que partiu o corao de minha melhor amiga, exatamente como far com voc. Mas a cautela
a deteve.
       O que Eve sabia a respeito do relacionamento de Julian com Beth?
      Junto  repulsa e ao desdm que Julian lhe despertava, comeava a crescer uma revolta e uma inesperada vontade de proteger Eve, evitar que ela sofresse o mesmo
que Beth. Comeava a concordar com Mary e com seu plano maluco de desmascarar Julian publicamente. E sentia aumentar dentro de si a vontade de atingir esse objetivo,
mesmo que para isso precisasse se colocar naquela posio desagradvel. Por mais que detestasse encorajar as investidas de Julian, e o papel ridculo que ele estava
fazendo, no desistiria. Havia um propsito maior naquilo tudo.
      Checando o batom recm-aplicado, Kelly sorriu docemente para Eve.
      - No permita que Julian a magoe... - advertiu Kelly.
      Eve corou.
      - Oh, ele nunca far isso, pois me respeita muito. S que est acostumado a lidar com mulheres muito mais glamourosas que eu, e at concordou em... esperar.
      - Se ele a amar de verdade vai esperar...
      Talvez, com sorte, ela se convencesse de que Julian no a merecia. Kelly esperava sinceramente que isso viesse a acontecer.
      Steve franziu o cenho, pensativo, ao observar Kelly e Eve saindo juntas do toilette feminino. Kelly era uma mulher bastante intrigante.
      Por sua atitude em relao a Julian, encorajando sutilmente suas investidas, evidentemente estava acostumada a usar sua inegvel sensualidade para conseguir
tudo que queria, e conquistar quem bem entendesse, no importando se o homem em questo fosse comprometido. Mas Steve tambm observou a forma atenciosa como tratou
seu acompanhante, Harry, e Eve. Principalmente Eve; sendo gentil, atenciosa, demonstrando sincera considerao e respeito pelos sentimentos de ambos.
      Uma mulher, dois tipos de comportamento diametralmente opostos. Qual deles revelava a verdadeira Kelly? E por que de repente era to importante descobrir aquilo?
Ela estava tentando seduzir Julian e o que ele mais queria era que algum mostrasse a Eve o verdadeiro carter do homem por quem se dizia apaixonada.
      Steve se ps a estudar Kelly. Seu vestido era requintado, e to perfeito que parecia ter sido feito sob encomenda. Mas algo lhe dizia que ela no estava to
 vontade nele quanto queria demonstrar. A todo momento olhava para si mesma, como uma garotinha insegura que pegou o vestido da me emprestado. Sua aparncia era
impecvel, mas pessoalmente Steve preferia v-la usando jeans, com a pele sem maquiagem, os cabelos soltos e seus olhos e boca ainda mais...
      De repente, ele se deu conta de onde seus pensamentos ameaavam lev-lo. Fazia tempo que uma mulher no o atraa tanto. Se ela de fato era a mulher que mostrava
ser, no seria seu tipo. E se no fosse, se estivesse apenas representando, ento seria mais imperativo ainda no se envolver com ela. Sua vida j andava complicada
demais sem ela. Quando chegasse a hora, ele se casaria, constituiria famlia com uma garota simptica, calma, sensata... algum que no fingisse ser outra pessoa.
      Claro que havia uma maneira de descobrir quem Kelly era de fato. O modo como uma mulher reage ao primeiro beijo de um homem diz exatamente que tipo de pessoa
ela , divagou ele.
      Sua preocupao aumentou. Que estava acontecendo com ele? No havia justificativa para aquele tipo de pensamento.
      Seu nico relacionamento srio acontecera quando tinha vinte e poucos anos. Pensou estar apaixonado, e acreditou que era correspondido. Ento, ela fez uma
longa viagem, e quando voltou, o amor tinha acabado.
      Desde ento, houve outras mulheres, vrias delas. Mas ao chegar aos trinta, Steve reconheceu que para ele, a razo e a responsabilidade prevaleceriam sempre
sobre a paixo e a impetuosidade. E l estava ele, no estava?
      - Vamos danar?
      Pelo brilho carregado de sensualidade que havia nos olhos de Julian ao fazer o convite, Kelly concluiu que o plano de Mary estava funcionando. Suas intenes
eram bvias.
      Kelly o fitou de modo indagador.
      - Mas voc ainda no danou com Eve, e...
      - No quero danar com ela, mas com voc - insistiu ele, em um tom baixo de voz, estendendo-lhe a mo.
      Kelly lutou contra a prpria conscincia, desejando que Harry no houvesse escolhido justo aquela hora para desaparecer.
      - Ela j havia me prometido esta dana.
      A interrupo de Steve Mass foi to inesperada quanto seu tom era autoritrio e frio.
      Sem dar a Julian oportunidade de protestar, Steve pegou a mo de Kelly. Trmula, ela levantou-se. No sentia a menor vontade de danar, mas reconheceu que
seria infinitamente melhor danar com ele do que com Julian.
      As boas maneiras sugeriam que devia agradecer a Steve por salv-la da situao embaraosa que se encontrava, no entanto, se fizesse aquilo, agiria em desacordo
com o papel que Mary designara para ela e, pior ainda, daria a Steve a chance que ele queria para acus-la por estar incentivado as investidas de Julian.
      - Sua irm  uma pessoa muito doce - comentou ela, a caminho da pista de dana.
      - Doce? - Suas sobrancelhas escuras ergueram-se indagadoramente. - No a considero doce, mas ingnua e vulnervel. H quanto tempo conhece Cox?
      A pergunta repentina a pegou de surpresa.
      - H algum tempo. Somos velhos amigos - respondeu Kelly, lembrando-se do papel que devia desempenhar.
      - Velhos amigos - repetiu Steve, enfatizando a palavra enquanto a fitava intensamente. - Entendo.
      Ao chegarem  pista, a banda tocava uma balada romntica. Steve tocou-a levemente no brao e a fez voltar-se em sua direo. Kelly ficou tensa no momento em
que ele a segurou pela cintura e a trouxe para junto de si.
      -Diga-me uma coisa... - Steve sussurrou contra seu ouvido. - O que Cox tem de especial, que tanto atrai as mulheres?
      Kelly o fitou, consternada. Steve estava impecavelmente vestido, e exalava um perfume suave e msculo. No entanto, apesar de toda aquela elegncia, se ele
no houvesse feito a barba naquela noite, seu rosto mostraria uma sombra escura e levemente spera ao toque, algo que causaria uma sensao deliciosamente sensual
a mulher que ele beijasse, ainda mais se essa mulher tivesse a pele sensvel e fina como a dela.
      Assustada com o rumo dos prprios pensamentos, Kelly percebeu que ainda no havia respondido  pergunta.
      - Bem... Julian gosta de mulheres e talvez por isso as agrade - disse ela, de modo hesitante.
      - Aposto que sim... E isso no a incomoda? Pelo que sei, a maioria das mulheres exige exclusividade em um relacionamento...
      - Julian  apenas um amigo - lembrou-o Kelly astuciosamente.
      - Um amigo ntimo? - pressionou Steve.
      Ele no pretendia poup-la, questionando-a sem parar, percebeu Kelly. Mas, para lhe responder, teria de mentir ainda mais, ou correria o risco de estragar
tudo.
      - Est quente aqui... Preciso de um pouco de ar fresco - queixou-se, desvencilhando-se dele.
      E no era mentira. Estava mesmo com calor, e o terrao seria a soluo perfeita para escapar do calor, que no era causado pela multido e sim pela presena
daquele homem a seu lado.
      A brisa fresca, vinda dos jardins, atingiu-a como um blsamo. Kelly desceu os degraus de pedra que levavam ao jardim.
      Alcanava o ltimo degrau quando uma pedra solta a fez tropear. J se sentia no cho quando foi fortemente segura por algum. Ao erguer os olhos, viu que
era Steve.
      - Voc est bem? - perguntou ele.
      - Creio que sim...
      Certamente que estava, mas ele parecia no ter a menor inteno de solt-la. Podia sentir o bater acelerado de seu corao junto ao peito dele. Seu prprio
corao saiu do compasso, e Kelly percebeu que sentia dificuldade em respirar.
      - Acha que torceu o tornozelo? Tente apoiar o p no cho.
      - O tornozelo? - Totalmente zonza, Kelly fitou-lhe os olhos azuis e, em seguida, a boca sensual. Retornou ao olhos ardentes que a fitavam. O efeito que causaram
nela foi o mesmo de um choque de mil volts, ou de um terremoto.
      Kelly umedeceu os lbios inesperadamente secos. Como um homem podia ter clios to longos e espessos, um olhar to intenso? Era como se ela estivesse...
      - Kelly...
      - Sim? - sussurrou ela, sabendo exatamente o que estava para acontecer.
      Em uma frao de segundo, tentou convencer-se de que seria apenas um beijo... Mas teve a sbita conscincia de que naquele caso, no seria bem assim. Aquele,
no era um beijo qualquer, mas sim o encontro, a carcia de sua boca contra a dele. Porm, por mais que tentasse entender o que estava acontecendo, e manter um pouco
de sanidade, no conseguia: o que sentia naquele momento era forte e arrebatador. Kelly se entregou s sensaes,  maciez,  firmeza e ao calor daqueles lbios
sensuais. De repente, a mudana repentina da explorao cuidadosa e hesitante, para uma exploso de desejo passional e intensa, fez seu corpo estremecer.
      - Steve!
      Seria ela mesma a sussurrar o nome dele, cheia de desejo e sensualidade? A expor perigosamente o corao terno e vulnervel que sempre guardara com tanto cuidado?
      Incapaz de se controlar, Kelly o tocou no queixo. Sentindo arrepios de prazer, ela saboreou o beijo enquanto ele a abraava fortemente.
      Aquela estava sendo a experincia mais ntima que j vivera. Os leves arrepios se transformaram em intensos tremores de emoo, e quando ele parou de beij-la,
Kelly gemeu e tocou seus lbios com a ponta dos dedos.
      Ele tambm estremeceu, tomado por um desejo to forte e to evidente, que Kelly sentiu o prprio corpo comear a responder.
      - Kelly, voc est a?
      O som da voz de Harry, vindo do terrao, trouxe-a de volta  realidade. Ruborizada, ela se afastou de Steve, sem saber se ficava feliz ou se ofendia por ele
a soltar to rpido.
      Enquanto olhava para Harry l em cima, Kelly no pde descobrir o que Steve estava sentindo. At ele dizer friamente:
      - Voc  uma mulher muito popular. Primeiro Julian, agora ele... Estou certo de que ir me desculpar se eu ficar fora dessa lista. Por mais atraente que voc
seja, acho que prefiro uma mulher menos experiente.
      Aquela brusquido pegou-a de surpresa e antes que Kelly pudesse responder, ele afastou-se apressado. Estranhamente abalada, ela se dirigiu  escada, considerando
a prpria vulnerabilidade.
      - Graas a Deus a encontrei - disse Harry, assim que a viu. - Mary me mataria se algo lhe acontecesse. Recebi ordens severas para cuidar de voc... - Ele parecia
preocupado, e lhe disse um pouco constrangido: - Sei que no  de minha conta, e Mary no me contou o que est acontecendo, mas esse sujeito, Cox, no  o tipo de
homem que gostaria de ver envolvido com minha pior inimiga.
      - Tem razo - concordou Kelly gentilmente.
      Assim que retornaram  mesa, Kelly notou que Steve estava de sada. Acenando brevemente para Harry e Kelly, ele ignorou os protestos de Eve que tentava det-lo,
dizendo que era cedo para ele ir embora.
      - Tenho uma reunio amanh bem cedo.
      - Ah, mas me prometeu que conversaria com Julian. Ele tem algo importante para discutir com voc.  sobre um novo empreendimento - lembrou Eve ansiosamente.
      Kelly ficou atenta  conversa. Julian certamente pretendia pedir algum emprstimo. Mary iria gostar de saber disso.
      Como se houvesse notado o interesse de Kelly pela conversa, Steve tocou levemente o ombro da irm.
      - Estou certo de que Harry e Kelly no esto interessados em nossos problemas particulares. Cox... - Ele acenou rapidamente na direo de Julian.
      Kelly notou o olhar gelado que ele lhe dirigiu enquanto falava.
      Ela estaria imaginando coisas ou Steve havia de fato enfatizado as palavras problemas particulares?
      Pela forma como ele tratava a irm, demonstrava ser um homem que respeitava o sexo feminino. No entanto, o modo como ele a tratara, nada tinha de respeitoso.
Para ela, o beijo que trocaram, fora fisicamente sensual e emocionalmente turbulento, uma completa reviravolta nos acontecimentos.
      Era uma situao to estranha que Kelly ficou sem saber como reagir. Estava ficando cada vez mais difcil desempenhar o papel que Mary lhe designou.
      Afinal, refletia ela, meia hora depois de voltar para casa, Julian parecia ter mordido a isca. Arrepiou-se ao lembrar do interesse que Julian demonstrara pelo
solitrio que ela trazia no dedo, um acessrio que ela mesma decidira acrescentar. O anel era falso, mas ele no certamente no notou. Mary estava certa, era hora
de algum desmascar-lo. No entanto, por mais que desejasse cooperar, ela gostaria que houvesse outro meio de fazer isso.
      - Voc, de repente, se transformar em uma mulher muito rica - dissera Mary. - Tudo o que precisa fazer,  deixar que Julian acredite que est apaixonada por
ele. Seu enorme ego e sua ambio cuidaro do resto.
      Kelly esperava que Mary estivesse certa, porque, jamais daria a Julian provas fsicas de que o desejava.
      Isso nunca!
     CAPTULO IV
      Kelly ergueu a cabea quando a campainha tocou. Devia ser Mary. Ela havia ligado e dito que passaria por l, para saber dos acontecimentos da noite anterior.
Tambm para pegar o vestido, que confessou ter alugado de uma butique exclusiva.
      A manh tinha sido bastante atribulada, com a visita de vrios clientes. Beth precisava voltar logo com vrias peas de cristal da Repblica Tcheca, pois as
havia prometido a trs pessoas.
Que seja algo diferente, bonito, mas sem ser dispendioso... - era o que todos desejavam.
Como foi tudo? Quero saber... - pediu Mary, ao entrar.
      - Que seja algo diferente, bonito, mas sem ser dispendioso... - era o que todos desejavam.
      - Como foi tudo? Quero saber... - pediu Mary, ao entrar.
      - Voc estava certa. Julian estava l, com a nova namorada. - Kelly fez uma pausa antes de acrescentar: -  uma pena. A garota  to jovem, to ingnua, e
est completamente apaixonada... Eu detestaria mago-la...
      - Ela se magoar ainda mais se permitirmos que Julian a engane, que se case com ela por interesse. Com as finanas abaladas, ele deve precisar desesperadamente
de dinheiro. Descobri que ela  muito rica, e que o futuro cunhado  muito influente na alta sociedade... Pelo que Harry me contou, Julian nem sequer disfarou seu
interesse em voc.
      -  verdade... - concordou Kelly. - Mary, no estou certa se conseguirei ir em frente com o que planejamos. No gosto de Julian e, embora me revolte o que
ele fez com Beth e o que est fazendo com Eve Frobisher, creio que...
      - Ajudaria se lhe prometesse que, de maneira alguma, em momento algum, haver uma situao em que precise ficar sozinha com ele? - perguntou Mary.
      Kelly a fitou longamente. Como Mary adivinhara que era justamente aquilo que a preocupava?
      - Voc tem toda razo de estar assustada... em seu lugar, eu tambm ficaria - continuou Mary, quando ela nada disse. - Harry est preocupado. Acha que eu,
como sua amiga, deveria alert-la quanto ao verdadeiro carter de Julian. E tambm est preocupado com Eve Frobisher. Disse que gostou dela. Para ser sincera, temo
que ele me pea para desistir de tudo.
      -  Ento, ele sabe o que estamos fazendo? - perguntou Kelly com surpresa. Ela sabia que Mary guardava segredos quando era preciso.
      -  No inteiramente... Harry  um homem leal e confivel. No sabe perceber quando uma pessoa est mentindo, pois subterfgios e trapaas so aliengenas para
ele. Claro que isso tem suas vantagens. Ele ser um excelente marido... - Mary olhou maliciosamente para Kelly. - No momento ele no tem ningum, e a me dele no
v a hora de v-lo casado e cheio de filhos. Caso esteja interessada v em frente. Harry  um bom partido.
      - No, obrigada. Gostei dele, mas como amigo.
      E, pelo que Kelly suspeitava, ela tambm no era o tipo dele. Mas sabia de algum que poderia ser. Notou os olhares ansiosos e protetores que ele lanara a
Eve Frobisher na noite anterior.
      -  pena... Bem, eu preciso ir agora. Quando Julian telefonar, o que na certa acontecer, eu quero saber, imediatamente...
      - Mary, oua! Eu no posso... - gritou Kelly.
      Mary porm j passava pela porta, ignorando seus protestos aflitos.
      Julian no telefonaria. Ele no ousaria. Flertar com ela durante o jantar era uma coisa, mas...
      Kelly, apesar de querer fazer aquilo por Beth, secretamente relutava em se envolver com Julian, mesmo que de mentira. No por tem-lo, mas pela raiva, pela
revolta que sentia pelo fato de ele no respeitar o sentimento das pessoas.
      Minutos depois, Kelly trancou a porta da loja e dirigiu-se  sala dos fundos para almoar, mas abandonou o sanduche inacabado. Steve no saa de seus pensamentos,
e ento lembrou-se da maneira como ele a tratara. Beijara-a sem o menor pudor. Kelly sentiu um arrepio percorr-la. Decididamente Steve era muito parecido com Julian.
      A campainha tocou, sobressaltando-a. Ser que as pessoas no sabiam ler? A campainha persistiu, e Kelly foi atender. No conseguiria comer com a campainha
tocando
insistentemente.
      Caminhou pisando firme at a loja e olhou pelo vidro da porta. Steve Mass encontrava-se do lado de fora.
      Kelly levou a mo ao pescoo, em um gesto instintivo.
Abalada, ela abriu a porta.
      - Voc, aqui?
      Steve parecia ainda mais surpreso.
      - Procuro por Kay Harris - disse ele, meio rspido.
      O choque era tanto que por um momento, Kelly no conseguiu falar e apenas o fitou.
      - Ela trabalha aqui, no trabalha? - insistiu ele, como se no a julgasse capaz de dar uma resposta correta.
      - Sim, trabalha. Isto ... trabalho...  Kelly, no Kay - corrigiu.
      - Voc!?
      Sentindo a relutncia de Steve em acreditar no que ouvira, Kelly endireitou o corpo e disse em um tom mais profissional:
      - Exatamente. Sou uma das donas da loja.
      - Voc pinta porcelana? - Sua descrena era evidente.
      A raiva cresceu dentro dela. Kelly podia no ser excelente em muitas coisas, e como qualquer ser humano, tinha seus defeitos. Mas sabia que era extremamente
capaz no que fazia.
      - Sim... Talvez queira ver minha carteira de identidade - sugeriu, ironicamente.
      - No ser necessrio. - O olhar arrogante de Steve ao dizer aquilo a fez ficar vermelha de raiva.
      - O qu, exatamente, voc deseja? - perguntou ela, impaciente. - Se for algum tipo de maluco que sai por a insultando as pessoas, sua atitude na noite passada
j deveria t-lo deixado satisfeito.
      Kelly sabia que passara dos limites ao dizer aquilo, mas era tarde para arrependimentos. Aprontou-se para o revide.
      - Se est se referindo ao beijo que lhe dei... - disse ele, sustentando seu olhar. - Permita-me dizer que voc tem uma maneira estranha de expressar seu desprazer.
      Ele nada mais disse, e nem precisava. Kelly entendeu perfeitamente a sutileza de sua crtica. A expresso em seus olhos e o tom de sua voz foram suficientes
para demonstrar quanto estava irritado. Sentiu-se mais confusa e humilhada do que nunca.
      - Aquilo foi um erro... - Foi s o que lhe ocorreu dizer.
      - Ah, sim, foi... Bem, infelizmente, estou com pressa. Gostaria de discutir um assunto profissional com voc.
      Kelly ficou ainda mais confusa. Como se no bastasse, ele ainda queria falar de negcios?
      O que lhe ia na alma deve ter sido expresso em seu rosto, pois ele logo tratou de explicar:
      - Segundo soube, voc  muito habilidosa na pintura de porcelana. E preciso que faa um trabalho para mim... Confesso que  minha ltima esperana.
      - Mas, quem falou a voc sobre mim?
      - Voc j vai saber... Minha av completar oitenta anos em breve, e seu sonho  ver completo um antigo aparelho de ch, herana de famlia. Ao longo dos anos,
algumas peas se quebraram. O aparelho no tem qualquer valor financeiro, apenas sentimental. Consegui descobrir que a Hartwell comprou a empresa do fabricante.
No entanto, embora eles continuem produzindo peas do mesmo formato, j no fazem as mesmas estampas, e, designar um de seus artistas para copiar os complicados
desenhos florais originais, ficaria muito dispendioso... Sendo assim, recomendaram-me que entrasse em contato com voc. Aparentemente, no conhecem outra pessoa
com sua competncia.
      - De fato, eu trabalhei para a Hartwell... Foi quando descobri minha vocao para a pintura em porcelana. Mas antes de me comprometer precisarei ver o desenho...
No ser fcil... nem barato...
      Mesmo contra  vontade, Kelly comoveu-se com a histria que Steve contou.
      - Estou com um dos pires, e a Hartwell gentilmente me autorizou a usar seus arquivos.
      - O pires est a?
      Steve balanou a cabea negativamente, parecendo um garotinho ao admitir:
      - Fiquei com medo de quebr-lo. Est em minha casa. Talvez, voc possa passar l para ver.
      O primeiro impulso de Kelly foi de recusar-se a ir, mas seu orgulho profissional e curiosidade impediram-na de agir intempestivamente.
      -  Bem, talvez eu possa ir... Mas somente aps o expediente da loja. Minha scia est viajando.
      -  Voc estaria livre esta noite?
      -  Eu...
      -  No tenho muito tempo. O aniversrio de vov ser em breve - avisou Steve.
      Kelly suspirou. No havia por que no ver o pires naquela noite.
      - Est bem. Esta noite, ento. Onde voc mora? Eu... - E se calou ao ouvir o telefone tocar. - Com licena... disse, voltando-se para atender a ligao.
      - Ol, Kelly,  Julian. Como est a mulher mais bonita e sensual que conheo?
      Kelly quase deixou o fone cair, enquanto a voz alta de Julian parecia tomar conta de loja. Embaraada, deu as costas para Steve, mesmo ciente de que ele tinha
ouvido a voz de Julian.
      -  Julian, desculpe-me, mas no posso atend-lo... Estou ocupada.
      -  Entendo, querida. Mas no importa. O que temos a dizer um ao outro tem que ser dito em particular. Puxa, voc quase me deixou louco ontem  noite, boneca...
Mal posso esperar para tornar a v-la.
      - Julian, por favor... - Kelly fechou os olhos, revoltada com tanta insistncia.
      - Telefonarei mais tarde, para seu apartamento. Ainda tenho o nmero...
      Julian desligou antes que ela pudesse protestar, deixando-a vermelha de raiva e de constrangimento. Raiva por sua presuno de achar que ela aceitaria v-lo,
mesmo sabendo que ele era um homem comprometido, e constrangimento por Steve ter ouvido a conversa. Ele na certa no perderia a oportunidade de fazer algum comentrio
maldoso, especialmente quando a mulher com quem Julian estava comprometido era sua irm.
      - Julian  um velho amigo - disse ela, olhando para Steve aps desligar.
      Seu modo incrdulo de fit-la dizia que ele no acreditara em uma s palavra do que ela dissera.
      - Verdade? Lamento por voc, no apenas por sua escolha infeliz de amigos...
      - Julian  namorado de sua irm - lembrou Kelly defensivamente.
      Steve caminhava em direo  porta, mas parou de repente e voltou-se para encar-la friamente.
      - Infelizmente. Espero voc s oito. - Ele tirou um carto do bolso e deixou-o sobre o balco. - O endereo est aqui...
      Kelly olhou para o carto, enquanto ele saa tranqilamente pela porta.
      Por que ela no disse alguma coisa? Por que no se revoltou? Deixou-o partir com a certeza de que ela no apenas estaria livre naquela noite, mas que atenderia
seu pedido?
      Kelly pegou o carto e leu o endereo. Conhecia vagamente o lugar onde ele morava. Tinha uma cliente que morava na mesma rua.
      Dez minutos antes de reabrir a loja, o telefone tornou a tocar. Para sua surpresa, era Beth.
      - Beth? Como est? Como esto as coisas por a? - perguntou, cheia de curiosidade.
      - Est tudo bem... Na verdade, j fiz vrios contatos e, amanh, visitarei uma fbrica de cristais, fora da cidade.
      - Como est conseguindo se comunicar, sem falar o idioma local? - perguntou Kelly. O idioma era uma das maiores preocupaes de Beth, e Kelly queria saber
como a amiga estava se saindo.
      - Ah, eu consegui um intrprete - contou Beth.
      Kelly ficou intrigada. O tom informal de Beth era incomum, e a deixou preocupada.
      - Ela est ajudando-a, acompanhando-a nas visitas s fbricas?
      - No  ela,  ele - Beth corrigiu alegremente. - Mas no precisa se preocupar. No quero saber de homens to cedo. Sei me cuidar, e ningum me dir o que
fazer, nem me forar a conhecer fbricas que no desejo...
      - Beth! No estou entendendo.... - Kelly a interrompeu, desnorteada.
      - Ah, est tudo bem. S estou desabafando.  Alex, o intrprete. Ele  descendente de ingleses, pelo que descobri. Seus avs deixaram Praga por motivos polticos,
e foram para os Estados Unidos. A me dele era criana na poca. Aps a revoluo, Alex voltou  procura da famlia, e ficou aqui desde ento.
      - Parece que sabe bastante sobre a vida desse homem, levando-se em conta que no se do muito bem - comentou Kelly, cheia de suspeita.
      - Est insistindo que eu visite a fbrica de cristais da prima dele, mas no estou com vontade de ir. Obviamente receber uma boa comisso sobre tudo o que
eu comprar. Ah! Descobri um lugar onde se fabricam as peas mais bonitas que j vi, e Alex quer me convencer de que o lugar  uma fraude, e as peas talvez no sejam
autnticas. Alega que  um truque comumente aplicado em turistas ingnuos como eu... Voc devia ver os cristais. So maravilhosos, perfeitos para serem vendidos
no Natal. Cheguei a pensar que, se o preo fosse razovel, poderamos comprar alguns jogos a mais, para vend-los em ocasies especiais como casamentos e aniversrios.
      Kelly empolgou-se com o entusiasmo da amiga. Era maravilhoso v-la novamente to alegre. E mais maravilhoso ainda  que ela no perguntara por Julian Cox.
      - Na verdade, estou pensando em dispensar o intrprete e ir sozinha at essa fbrica - continuou Beth. - Ele merece isso por querer garantir os lucros dele
e da prima. Diz que quando a prima consegue um modelo, faz cpias idnticas.
      - Se  assim, talvez valesse a pena conhecer a fbrica.
      - Nem pensar! No permitirei que ele me d ordens. Alm disso, j vi o que quero, e sei onde conseguir. Estou decidida a adquirir um lote exclusivo e a um
bom preo. Agora preciso desligar. Alex passar para me pegar em meia hora. Vai me levar para um passeio na ponte Charles. E, como hoje est chovendo, provavelmente
no haver muitos turistas, e o passeio ser tranqilo.
      - Divirta-se! - brincou Kelly, sorrindo ao se despedir da amiga.
      Anna e Mary ficariam satisfeitas ao saber que Beth parecia ter se esquecido de Julian Cox.
     CAPTULO V
      Ao entrar na casa que temporariamente alugara, Steve olhou com averso para as paredes amarelo-canrio da sala de estar. A cor era de um incrvel mau gosto.
No via a hora de mudar-se para a espaosa fazenda em estilo georgiano que comprara nos arredores da cidade, e que se encontrava em reforma. Ficara desabitada durante
trs anos, e Steve a comprara por um bom preo, aps convencer os herdeiros do ltimo dono dela, de que ningum, em s conscincia, pagaria o preo exorbitante que
pediam pela propriedade.
      - Se no venderem agora acabaro se arrependendo. A casa est abandonada e rapidamente vai se deteriorar - disse Steve ao corretor de imveis. - Se o governo
autorizar a construo da nova estrada, a rea ser invadida por posseiros, ansiosos por encontrar uma casa vazia para se instalarem.
      No entanto, a compra da casa foi apenas o comeo de uma srie interminvel de difceis negociaes.
      Finalmente, havia poucos dias, o construtor iniciara os trabalhos e, com sorte, dentro de um ano, ele e Eve se mudariam para l. Pelo menos, foi o prazo que
lhe garantiram, quando estivera no local pela ltima vez.
      Steve suspirou. Por enquanto, teria que conviver com o mau gosto do ltimo morador da casa alugada.
      - Steve,  voc?
      Ele olhou intrigado para Eve que chegou  sala, correndo, e com o rosto vermelho de excitao.
      - Julian telefonou. Finalmente estar livre esta noite, e me levar para jantar fora. Ah, Steve, tive medo de que ele se decepcionasse, com sua recusa em ajud-lo
no seu novo empreendimento.
      Steve se conteve. No adiantava querer que a irm fosse menos ingnua, nem culpar sua av e a escola antiquada que ela freqentara pelo modo como a educaram.
Seno, teria de culpar seus pais por terem morrido... e a si mesmo por no ter sido capaz de assumir a responsabilidade de cri-la, sem a ajuda da av.
      Nan se decepcionaria se soubesse que a escola que to cuidadosamente escolhera, deixara Eve totalmente despreparada para o mundo. Steve sabia que, em breve,
sua irm teria de abrir os olhos para a realidade, e da maneira mais dolorosa possvel.
      No havia como alertar Eve sobre o mau-caratismo de Julian Cox. Ela era teimosa e determinada, e sensvel no que dizia respeito  prpria independncia, e
s escolhas que fazia. Sugerir que estava total e completamente enganada sobre quem era Julian, seria o mesmo que jog-la em seus braos. J seria bastante ruim,
se tudo o que ela tivesse a perder fosse a inocncia, emocional e fsica. No entanto, ao completar vinte e cinco anos, Eve herdaria uma vultosa quantia em dinheiro,
deixada pelos pais. Steve estava convencido de que Julian Cox pretendia casar-se com ela apenas por interesse. Ele investigara a situao financeira de Julian, e,
descobrira que era bastante confusa, com algumas transaes ilegais. Mas Eve no acreditaria em uma s palavra que se dissesse contra o namorado.
      - Ah, estou to feliz. Julian ficou triste esta manh, aps voc ter-lhe negado ajuda. Julguei que ele nunca mais fosse me procurar... Foi muita crueldade
de sua parte - censurou Eve.
      - Sei bem como se sente, Eve, mas nem assim eu arriscaria meu dinheiro s para agradar seu namorado.
      - Por favor, Steve, no comece com suas desconfianas - implorou ela. - S porque no quer se apaixonar... porque no tem com quem dividir sua vida, no quer
dizer que eu tenha de fazer o mesmo. Eu amo Julian, Steve.
       Ser que a irm sabia o que era o amor? Steve suspirou ao subir a escada Gostaria de encontrar uma maneira de proteg-la, de abrir-lhe os olhos e evitar que
se decepcionasse, mas suspeitava de que, mesmo apresentando evidncias incontestveis da canalhice de Julian Cox, Eve manteria olhos fechados.
      Mulheres! Jamais entenderia o funcionamento da mente delas e, menos ainda, seus sentimentos e reaes. Lembrou-se de Kelly Harris. Ela era uma mulher jovem,
bonita e, aparentemente, inteligente, mas, assim como Eve, era completamente alheia aos defeitos de Cox. Harry lhe parecera um rapaz de bom carter, do tipo que
gostaria de ver cortejando sua irm. Porm, como parceiro de uma mulher de personalidade marcante, alegre e festiva como Kelly, seria uma pssima companhia. Ela
precisava de algum que fossei igualmente inteligente, que soubesse apreciar a beleza e arte de seu trabalho, que conseguisse partilhar da paixo que ele sentira
ao t-la em seus braos.
      Steve se levantou.
      Nada nela indicava que fosse insegura, carente, que tivesse o perfil de uma vtima em potencial de um crpula como Cox.
      Eve, por outro lado, precisava desesperadamente se sentir amada e segura. Ela achava que, com Julian Cox, teria a proteo e o apoio emocional que no tivera
quando criana. Eve precisava de um homem que a tratasse com gentileza, algum com quem ela tivesse um relacionamento que ele, pessoalmente, achava totalmente desigual.
A mulher por quem Steve se apaixonaria teria de ser igual a ele, sua companheira, em todos os aspectos da vida. Deveria haver total e completa honestidade entre
ambos, uma profunda certeza de que permaneceriam juntos, apoiando-se mutuamente, por toda a eternidade.
      Eve se enganava quando dizia que ele no queria se apaixonar. Em breve ele completaria quarenta anos. Pensar em si mesmo como quarento, no era nada agradvel,
especialmente quando se imaginava sozinho, sem mulher, nem filhos.
      Inesperadamente, a lembrana dos lbios macios de Kelly contra os seus fez seu sangue ferver. A atitude daquela mulher durante o jantar, e que tanto o intrigara,
de repente se transformou em uma irritao incontrolvel. Ser que ela o julgava incapaz de perceber que seu relacionamento com Julian no combinava com sua personalidade?
Que mistrio havia entre eles? Que poder tinha aquele homem para seduzir uma mulher como ela? Era como se, por algum motivo desconhecido, ele a tivesse nas mos.
      Poderia se dizer que Julian a enfeitiava... como ela prpria parecia fazer com Steve.
      Kelly parou no meio do caminho para pegar as chaves. No pequeno hall de entrada do apartamento, sentiu o forte aroma do prprio perfume. Procurou se convencer
de que apenas no conseguia sair sem se perfumar, e de que no havia um significado profundo, psicolgico nem mstico nisso. Seu encontro com Steve Mass no era
importante.
      No era de usar muita maquiagem, nem penteados e roupas sofisticados, mas gostava de se sentir feminina usando sempre o mesmo perfume, como uma marca registrada,
prpria.
      Naquela noite, ela esquecera os jeans e optara por um conjunto bem talhado de cala comprida e blazer, apenas para sentir-se mais profissional. Afinal, aquele
era um encontro de negcios, embora uma leve excitao tomasse conta de seus nervos.
      Porcelanas Hartwell sempre lhe traziam boas lembranas. Interessara-se por elas desde que as vira, ainda criana, na manso de alguns amigos de seus pais.
Era natural ficar excitada diante da possibilidade de ver peas extremamente raras como a que Steve descreveu.
      Dirigiu apenas alguns minutos e no teve dificuldade para encontrar a casa de Steve. Ray-on-Averton era uma cidade relativamente pequena, quase intocada pelos
efeitos da revoluo industrial, e ainda rodeada pelas mesmas fazendas de tempos passados.
      Kelly estacionou logo atrs de um Mercedes carssimo que estava estacionado na calada. Saiu do carro e subiu os trs degraus que levavam  entrada da residncia.
Logo aps ter tocado a campainha, Steve veio abrir a porta.
      Diferente dela, ele se vestia casualmente, usava cala de brim e camisa xadrez.
      A cala apertada revelava o contorno das pernas musculosas e dos quadris estreitos, notou Kelly. Em sua poca de estudante, ela participara de aulas de desenho
do corpo humano, e apesar de ter visto nus, tanto masculinos quanto femininos, no ficou imune s imagens que inexplicavelmente vieram-lhe  mente. Que pensava estar
fazendo, mentalmente visualizando Steve como uma esttua grega?
      Tal atitude no combinava com ela.
      - Por aqui - informou Steve, indicando-lhe uma das portas do corredor, o tom frio e cortante de sua voz interrompendo os pensamentos dela.
      A surpresa diante da pintura amarelo-canrio do corredor deve ter se estampado em seu rosto, pois Steve comentou secamente:
      - Terrvel, no acha? Infelizmente, o efeito chocante no diminui com o tempo.
      - Voc poderia ter escolhido outra cor - comentou Kelly, recusando-se a concordar com ele, mesmo sendo em relao  cor da parede.
      - No, no poderia. A casa no  minha,  alugada. Estou morando aqui at terminar a reforma da casa que comprei.
      - Ah, ento pretende morar definitivamente na cidade?
      Kelly arrependeu-se de ter feito a pergunta. No queria demonstrar curiosidade a respeito de nada que se relacionasse aquele homem. Porm, para seu alvio,
Steve no a interpretou mal e respondeu rapidamente, embora com frieza:
      - Sim, pretendemos. No deve contar com nossa partida como um meio fcil de afastar minha irm da vida de seu amante. Seria perda de tempo.
      - Jamais me ocorreria fazer tal coisa - negou Kelly enfurecida, esquecendo-se de seu papel de femme fatale.
      - Eve acredita que Julian quer se casar com ela. Como se sente a respeito disso? - desafiou Steve.
      - E voc, como se sente?
      - Julian Cox  um mentiroso, trapaceiro e, provavelmente, deve estar metido em algum tipo de falcatrua financeira. Como acha que me sinto? - esbravejou ele.
      Kelly deu de ombros.
      - Como vou saber?
      - Estranho... Voc no me parece surpresa, nem chocada com o que lhe disse. Talvez, goste da idia de ser a outra na vida de um homem casado com uma mulher
extremamente rica e apaixonada.
      - No  bem assim...
      Kelly percebeu o que estava dizendo e se calou.
      - No  o que deseja para si? - desafiou Steve. - Mas ento por que continua sendo amante dele?
      - Oua... O meu relacionamento com Julian, seja qual for, no  da conta de ningum. Se no gosta dele, se o desaprova, por que no conversa com Eve?
      - Eve est muito apaixonada e no me ouve. Mas diga-me uma coisa... O que v em Julian? Que tipo de atrao  essa, to forte, que ele exerce sobre as mulheres?
      - Por que no pergunta a Eve?
      Kelly penalizou-se. Era bvio que ele se preocupava com a irm, e com razo. No entanto, ela estava de mos atadas, incapaz de fazer algo para ajud-lo. No
entanto, no resistiu  tentao de puni-lo pelo que havia lhe dito... e feito...
      - De fato, deve ser difcil para outro homem entender por que Julian  to atraente para as mulheres. Talvez, sinta cime.
      - Cime? No diga bobagem. S porque a beijei na noite passada, no quer dizer que...
      - Eu quis dizer, cime do amor que sua irm sente por ele - interrompeu Kelly. - Voc no queria que eu visse o tal pires? - perguntou, querendo dar  conversa
um tom mais profissional.
      - Oh, sim, claro. Est aqui - respondeu Steve.
      - Conduziu-a a um outro aposento, onde as paredes haviam sido pintadas em um desagradvel tom de verde.
      - Horrvel, como o restante da casa - disse ele, como se houvesse lido os pensamentos dela. - O dono deve ser daltnico... ou coisa pior. Devia ver a pintura
dos banheiros, o da sute que estou usando  cor de prpura.
      - Prpura? No posso crer!
      - Se quiser, posso lhe mostrar... - comeou ele a dizer, mas calou-se e se ps a estudar o rosto corado de Kelly. - Interessante! - zombou ele. - Por que ser
que uma mulher que admite abertamente ser amante de um homem comprometido, fica embaraada diante da possibilidade de ir visitar o quarto de um homem? Sugeri que
visitasse meu quarto, no minha cama...
      - Quem disse que corei de vergonha? - protestou Kelly. - Foi o calor... Est abafado aqui dentro.
      - E mesmo? - perguntou Steve, acrescentando em seguida: - Ento, por que est arrepiada?
      Antes que Kelly pudesse impedi-lo, Steve pegou seu brao e passou a analisar sua pele arrepiada.
      Sem aquecimento, a sala estava gelada. E, para piorar a situao, o contato de sua mo, embora breve e nada sensual a deixou ainda mais agitada. Mortificada,
sentindo os mamilos se enrijecerem, ela voltou-se para esconder a evidncia extraordinria de sua reao a ele.
      No entanto, a Steve nada passou despercebido. E, a julgar pela expresso em seu rosto, o que viu o deixou desgostoso e furioso.
      Por Deus! Se o mero fato de ouvir mencionar Julian a excitava tanto, ento, ela devia estar perdidamente apaixonada, concluiu Steve ao v-la desviar o rosto
corado.
      - O pires est aqui -; avisou ele, secamente, aproximando-se de um armrio.
      Kelly o seguiu em silncio, mantendo uma certa distncia enquanto ele abria uma das portas do armrio e pegava a pea em questo.
      Quando ele mostrou-lhe o pires de porcelana, Kelly soltou um pequeno gemido de prazer. Pegou-o na mo para melhor observar.
      - De fato,  uma beleza... - comentou entusiasmada. Com a ponta dos dedos, ela acariciou o desenho. - Pelo estilo, parece-me ser um Svres.
      - E . Pelo menos foi o que me disseram, e que  obra de um artista particularmente talentoso. Antigamente, no ltimo estgio de aprendizado, os artistas faziam
algumas obras para serem expostas.
      - Sei disso - concordou Kelly distraidamente, mal conseguindo tirar os olhos do pires. - Ah,  to lindo... to cheio de detalhes...
      -Acha que conseguir copiar o desenho?-perguntou Steve. Kelly o fitou, pensativamente.
      - No sei... - admitiu. -  um trabalho relativamente complexo... e s o material para fazer a folhagem em ouro j seria bastante dispendioso... Ser que a
Hartwell no poderia
recomendar outra pessoa, algum com mais experincia?
      Steve lanou-lhe um olhar superficial.
      - Segundo eles, no h algum mais experiente do que voc. Para seu desespero, Kelly sentiu o rosto mais uma vez arder.
      -  muita gentileza deles dizerem isso, mas...
      - Eu soube que voc recusou um contrato bastante lucrativo, para abrir seu prprio negcio.
      -  verdade... Prefiro trabalhar por conta prpria.
      - Mesmo no sendo to lucrativo quanto seria se trabalhasse para a Hartwell?
      - Dinheiro no  tudo na vida - admitiu Kelly aps uma pequena pausa na conversa.
      Depois disso, seguiu-se um silncio tenso e cheio de significado. Kelly sentiu que dissera algo errado, porm no sabia o qu.
      - Suponho que no concorde com esse tipo de atitude - desafiou ela, quando o silncio prolongou-se. - Pelo jeito, acha uma estupidez no se tirar o mximo
proveito financeiro do prprio talento.
      - Pelo contrrio. Eu lamentaria saber de algum sendo forado a aceitar um estilo de vida contrrio ao seu.
      - No entanto, tem dificuldade em acreditar que, para mim, dinheiro no  tudo na vida - insistiu Kelly.
      - O que no consigo entender  como uma mulher como voc considera Julian Cox como sendo um bom parceiro - corrigiu-a Steve.
      - Bem, eu no vim aqui para falar de Julian - disse ela, admirando um pouco mais a pea que tinha em suas mos, antes de devolv-la a Steve. No havia nada
que lhe daria maior prazer do que fazer aquele trabalho e completar as peas daquele belo aparelho de ch. Mas preferia evitar qualquer contato com Steve. Porm,
antes de verbalizar a deciso, Steve adiantou-se.
      -  O aniversrio de minha av est se aproximando no temos tempo a perder. Programei uma visita  fbrica na quarta-feira. L, voc conseguir as peas de
porcelana em branco, alm de toda a tinta que precisar.
      -  Quarta-feira?  impossvel... No posso me ausentar da loja - protestou Kelly.
      -  Eu sabia que voc diria isso, tanto  que me pedi a Eve que fique na loja enquanto estivermos fora. Antes que diga alguma coisa, quero que saiba que ela
trabalhou na Harvey Nicks enquanto cursava o ltimo ano da faculdade.
      -  Na Harvey Nicks? - explodiu Kelly, acrescentando habilmente: - Mas isso aqui no  Knightsbridge...
      -  Ningum disse que era - concordou ele. - Precisamos sair bem cedo. Irei apanh-la, digamos... s oito horas, e deixarei Eve na loja.
      -  Espere um pouco... Eu ainda no disse que aceitava o trabalho.
      -  Qual  o problema? Tem medo de que Cox fique com cime quando souber que passou o dia comigo?
      -  Isso nada tem a ver com Julian - respondeu Kelly, sem esconder a irritao que sentia.
      - timo. Passarei para apanh-la na quarta-feira s oito - afirmou Steve, enquanto dirigia-se  sada para abrir-lhe a porta.
      No havia como demov-lo da idia de lev-la a Staffordshire, reconheceu Kelly, em desespero, acompanhando-o em direo  porta.
      Steve comentou docemente:
      - Vejo que decidiu acreditar em minha palavra quanto a pintura das paredes de meu quarto ser horrvel...
      Kelly lanou-lhe um olhar fulminante.
      -  A cor das paredes de seu quarto, seja qual for, prpura, verde ou vermelho, no me interessa - disse ela, em um tom spero.
      -  Vermelho... A cor da paixo - divagou Steve. - Interessante que a tenha sugerido...
      - Sugerido? Eu no fiz tal coisa - retrucou Kelly. - O que pensa que est fazendo? - exigiu ela, quando, em vez de abrir a porta, ele gentilmente, pegou-a
pelos ombros e a fez voltar-se.
      - No precisa ter pressa. Julian est com Eve. Vou lhe preparar uma xcara de chocolate quente - disse ele, acrescentando suavemente: -  bom para esquentar
o sangue e acalmar paixes.
      - Saiba que detesto chocolate, e alm disso, minha mesa est repleta de trabalho.
      - Ento, quem sabe, um copo de vinho? - insistiu Steve.
      Kelly pensou em negar, mas ento, por algum motivo desconhecido, aceitou a bebida.
      - Por aqui - indicou Steve, conduzindo-a atravs do corredor em direo  saleta. Era um misto de escritrio e biblioteca, confortavelmente mobiliada. Um par
de poltronas e uma imensa escrivaninha ocupavam o espao sob a janela. - No Natal passado, Eve alugou um vinhedo para mim na Frana. H um prazer especial em se
beber o vinho preparado com as uvas do prprio vinhedo e, quando se quer, e possvel participar de todo o processo de fabricao, que surpreendentemente,  bastante
interessante...
      - De fato, deve ser...
      Steve a fitou, e um sorriso inesperado insinuou-se nos cantos da boca.
      - Eu no me importaria em levar uma vida tranqila de vinicultor... Adoraria viver perto de uma daquelas cidades medievais, cujas paisagens so verdadeiros
quadros.
      - Parece-me idlico - respondeu Kelly, sem pensar, e em seguida mordeu o lbio. - Olhe, no posso ficar. Tenho trabalho a minha espera, e...
      - Entendo - aceitou Steve. Tinha o rosto nas sombras, mas sua voz denotava uma inconfundvel tenso. Na certa continuava zangado, decidiu Kelly, contendo um
suspiro. Por que devia se importar com o que ele sentia ou pensava?
      Desta vez, ao se dirigir  porta, Steve no tentou convenc-la a ficar. Simplesmente segurou a porta para que passasse e formalmente agradeceu-lhe a visita.
      Observando Kelly at que ela estivesse acomodada em segurana dentro do carro, Steve se perguntou por que revelara a ela aquele seu antigo sonho. Que possvel
interesse ela poderia ter nele? Por que gostaria que ela se interessasse?
      Kelly era como um enigma, um quebra-cabea de propores incalculveis. E ele era um tolo.
      Ao subir e acender a luz do quarto prpura, Steve observou a cama branca impecavelmente arrumada. Mentira ao dizer a Kelly que queria mostrar-lhe o quarto,
e no a cama. Naquele instante, imaginou-a deitada ali, languidamente sob os lenis, os braos estendidos em sua direo,
em um convite mudo.
      Eve no teve uma boa noite. Ela e Julian tiveram uma pequena discusso que surgiu de um simples comentrio a respeito da beleza e vivacidade de Kelly. Julian,
no entanto, reagira como se ela o houvesse acusado de um crime, explodindo com uma raiva to intensa que a assustou.
      Chocada e em prantos, Eve saiu correndo do apartamento dele, ignorando seus pedidos para que voltasse enquanto ligava o motor do carro. E agora, l estava
ela, caminhando tristemente pela beira do rio, desesperadamente tentando evitar olhar para os casais de namorados que caminhavam abraados por ali.
      - Eve!
      Ao ouvir a voz masculina chamar seu nome, instintivamente ela voltou-se para olhar. Prendendo o flego, ela reconheceu Harry. Era ele que vinha correndo em
sua direo.
      - Eu a vi quando atravessei a ponte - disse ele, sorrindo e apontando para a ponte por onde acabara de passar. De repente notou sua tristeza. - O que houve?
Algum problema?
      - Nenhum - mentiu Eve. Mas ela em seguida soluou e uma lgrima rolou traioeiramente por seu rosto.
      -  Cox, no ? - sups Harry, revelando uma intuio que teria surpreendido seus pais, que o consideravam bondoso, porm um fiasco no tocante a agilidade
mental.
      - Ns discutimos - admitiu Eve, mas no mesmo instante acrescentou protetoramente - A culpa foi minha. Eu... mencionei Kelly, e isso o irritou. Eu no deveria
ter tocado no nome dela. Obviamente, trata-se de algum ligado ao passado dele, e ao...
      Eve se calou, vendo Harry balanar a cabea.
      - Voc tem razo de estar aborrecida - Harry a consolou.
      - Tem todo o direito, especialmente aps o modo como...
      - Julian flertou com Kelly durante todo o jantar. Eu vi - completou Eve, adivinhando o que ele iria dizer. - Mas sei que eles so velhos amigos, e Julian 
um homem atraente...
      Harry torceu o nariz.
      -  Imagino que voc no goste dele. Afinal, Kelly  sua namorada.
      -  No, no ... No tenho namorada... e nunca quis ter, at ter acompanhado Kelly ao jantar para atender ao pedido de uma prima...
      -  Ento, voc e Kelly no esto namorando? - perguntou Eve ingenuamente.
      - Ela  uma boa garota, mas no  meu tipo de mulher...
      Inexplicavelmente, enquanto caminhavam, Eve descobriu que estava to prxima de Harry que, quando passaram ao lado de outro casal, pareceu-lhe a coisa mais
natural do mundo que ele pousasse a mo em seu ombro, protetoramente.
      Era muito agradvel ser tratada como uma mulher frgil, vulnervel e valiosa. Ela se sentia segura e protegida... E feliz. No to feliz quanto era com Julian,
claro, decidiu enquanto Harry gentilmente a conduzia para o abrigo da copa de algumas rvores  beira do rio.
      - Oua bem - disse ele com firmeza. - Voc no deve permitir que Julian a magoe. Ele tem muita sorte por ter uma garota como voc...
      - Oh, Harry, sou eu quem tem sorte... Sou uma pessoa simples e comum, como centenas de outras. E Julian...
      - No se menospreze - retrucou Harry. - Voc  linda, Eve - disse ele roucamente, os olhos fixos em seus lbios carnudos. - Notei isso no instante em que a
vi...
      Um estranho arrepio percorreu o corpo de Eve, ao reconhecer a forma como Harry olhava para sua boca. Ela podia ser ingnua, mas era mulher o bastante para
saber quando um homem a desejava, ou quando no a desejava.
      E Julian no a desejara naquela noite. Ele a repelira quando tentou se aninhar em seus braos.
      - Harry - Eve sussurrou docemente.
      - No me olhe dessa forma, Eve - murmurou ele. - Quero muito beij-la... Na verdade, vou beij-la.
      Acomodar-se nos braos de Harry era como sentir-se em casa, decidiu Eve, inesperadamente feliz. Eram fortes, confortveis e aconchegantes.
      O beijo dele era quente e, ao mesmo tempo, gentil e respeitoso. Ele pedia... no se apossava...
      - Desculpe... Eu no devia ter feito isso - disse Harry, afastando-se dela. - Para ser franco, eu...
      Parecendo arrependido, ele calou-se e deu-lhe as costas. Sem dizer uma s palavra, afastou-se apressado.
      Sentindo-se a mais abandonada das mulheres, Eve correu atrs dele. Por que a deixara ali, sem mais nem menos? Teria mentido quando afirmara no ser comprometido
com Kelly?
      Sabia, por instinto, que Julian mentira ao afirmar que Kelly nada significava. No era to tola. Viu a forma como ele a fitara durante o baile, mas o amava
demais para desistir dele... E para gostar do beijo de outro homem.
      Eve levou as mos ao rosto corado. Que estava acontecendo com ela?
      No era de admirar, que Julian houvesse ficado to nervoso, decidiu ela, na volta para casa. O pobrezinho sofrera uma grande decepo, quando Steve se recusara
a financiar seu novo empreendimento.
      Ela tentara explicar a ele que no exercia a menor influncia sobre as decises do irmo. Julian ento comeou a fazer perguntas sobre sua herana, e ela explicou
que s poderia tocar no dinheiro quando completasse vinte e cinco anos.
      - Mas ainda faltam quatro anos! - explodiu ele. - O que aconteceria se nos casssemos e precisssemos de dinheiro para comprar uma casa?
      Se nos casssemos...
      - Confesso que no sei. Talvez, o banco me empreste o dinheiro... Preciso checar com Steve...
      - No! No faa isso - pediu Julian, secamente.
      - Quando nos casarmos, poderei me mudar para c. - Eve tentou se aninhar nos braos dele.
      Julian deu de ombros com indiferena, sem entusiasmo algum.
      Eve preocupou-se e cometeu o erro de perguntar:
      - Voc quer se casar comigo, no quer, Julian? E quanto a Kelly? No pude deixar de reparar o interesse que demonstrou por ela durante o jantar...
      - Kelly  apenas uma amiga - esquivou-se ele, nervosamente. - Mas seja como for, nosso relacionamento no  de sua conta...
      Eve o entendia. Obviamente Julian estava  beira de um ataque de nervos por causa dos problemas financeiros. Fora muita crueldade Steve se recusar a ajud-lo.
      Eve franziu a testa. Claro que Steve no gostava de Julian e nem o aprovava. Mas ele no o conhecia to bem quanto ela.
     CAPTULO VI
      - Ol, Kelly. Como est?
      Kelly sorriu ao reconhecer a voz de Mary. Eram onze da manh, e ela se preparava para tomar uma xcara de caf, aps o terceiro cliente do dia ter acabado
de sair da loja.
      - Estou bem, Mary.
      -Alguma novidade? Julian a procurou? - Mary quis saber.
      - Ele telefonou, mas no pude lhe dar muita ateno. Havia clientes na loja. A nica coisa que sei,  que ele est tentando convencer o irmo da namorada a
lhe financiar um novo empreendimento.
      - Estava... - corrigiu-a Mary. - Steve se recusou a financi-lo.
      Como Mary podia saber daquilo to rpido? Quem seria seu informante?
      - Quer almoar comigo amanh? Ento poderemos conversar com maior tranqilidade - sugeriu Mary.
      - Amanh? Lamento, mas no posso. Preciso ir a Staffordshire.
      - Staffordshire? Pretende fazer compras?
      - No. Irei at l com Steve Mass, ele quer que eu lhe faa um trabalho de pintura em porcelana, e preciso comprar as peas brancas. Pretende d-las de presente
 av.
      - Tenha cuidado, Kelly. No se esquea de que a irm dele est saindo com Julian, e espera se casar com ele. Steve deve estar curioso por saber que papel voc
representa na vida do futuro cunhado. No disse nada a ele, no ?
      -  Claro que no.
      -  Ainda bem. Seno, tudo estaria perdido.
      -  No sou tola, Mary - informou Kelly, comeando a se irritar. Gostava da amiga, mas, s vezes, sua atitude autoritria a revoltava. Ela no era Beth, que
a aceitava como era, com pacincia e compreenso, sempre acreditando em suas boas intenes.
      -  E eu no sei disso? Steve Mass  um homem muito atraente... - disse Mary, risonha. - Eu tambm teria aceito um convite dele, para ir a qualquer lugar.
      -  Voc o acha atraente? Pois eu no - apressou-se Kelly em responder. - Vou a Staffordshire a trabalho, e, alm disso, ser uma oportunidade nica. Talvez,
eu no tenha outra chance de trabalhar em algo to especial. Ah, antes que eu me esquea, Beth ligou... Aparentemente, ela est tendo problemas com o intrprete.
Mas no tocou no nome de Julian, graas a Deus.
      -   bom saber disso.
      -  Quem de fato me preocupa  Eve Frobisher.  difcil me conter e no desmascarar Julian agora, sabendo do risco que a jovem est correndo.
      -  Esquea essa moa e se concentre naquilo que precisa ser feito - insistiu Mary. - Ela tem o irmo para proteger a ela e aos interesses de ambos. Por falar
nisso, Steve comentou algo a respeito de Julian?
      -  Deixou bastante claro que no prova meu relacionamento com ele - informou Kelly.
      - Pensando bem, seria bom deix-lo pensar que ser capaz de persuadi-la a pensar melhor a respeito de Julian. Os homens adoram sentir que esto no comando
da situao, e que podem proteger uma pobre mulher inexperiente. Faz bem ao ego deles e no faria mal algum ter Steve Mass como nosso aliado.
      -  Ele jamais pensaria que sou uma pobre mulher desprotegida, Mary - informou Kelly.
      - Se voc no tentar, jamais saber - disse Mary. - J imaginou quanta informao til sobre Julian ns poderamos obter por seu intermdio, se ele...
      - No estou disposta a tentar - retrucou Kelly. - Enganar Julian, fazendo-o acreditar que estou interessada nele  uma coisa; mentir para Steve  outra, bem
diferente...
      -  Por qu? - perguntou Mary com interesse.
      -  Porque no gosto de mentir para as pessoas - respondeu Kelly. - Julian  um caso isolado. Ele precisa ser castigado pelo mal que causou a Beth e para que
no faa o mesmo com outras moas. Quanto a fazer Steve acreditar que sou uma coitadinha indefesa, que no sabe cuidar da prpria vida e das prprias emoes, 
uma idia to absurda que no deve ser levada em considerao. Ele no acreditaria em mim, e descobriria a farsa em um minuto.
      -  Ser? Ele parece conhec-la muito bem, apesar de ter passado somente umas poucas horas ao seu lado no jantar - brincou Mary.
      -  Ele acredita que estou tentando separar Julian e Eve. Vamos deixar tudo como est e prosseguirmos com o plano, est bem? - sugeriu Kelly, fingindo ignorar
o comentrio malicioso da amiga.
      -  Se voc prefere assim... - concordou Mary, acrescentando em seguida: - Bem... preciso combinar com Anna a melhor maneira de ela contatar Julian e oferecer-lhe
dinheiro para seu novo empreendimento. Agora que Steve se recusou a ajud-lo, ele deve estar desesperado. Aposto que nem sequer perguntar que motivos a levaram
a fazer tal oferta. Mesmo sem saber, Steve nos fez um grande favor.
      - Estou certa de que ele ficaria feliz em saber disso - comentou Kelly mordazmente.
      - Ah, antes que eu me esquea, Harry lhe mandou lembranas - provocou Mary.
      - Tem certeza? Ele me pareceu muito mais interessado em Eve do que em mim. Os dois parecem ter sido feitos um para o outro. Formam um lindo casal.
      - Mas Eve s tem olhos para Julian - lembrou Mary.
      - Errado. Ela ama o homem que acredita que ele seja - corrigiu Kelly. - Pobre garota, Julian partir seu corao.
      - Bem, quando isso acontecer, Harry estar l para consol-la. Lembre-se, Kelly, voc precisa se concentrar em Julian, tentar convenc-lo de que o deseja.
Ento, quando ele for publicamente abandonado, como fez com Beth, nem sequer saber o que est acontecendo, at que j tenha acontecido.
      - No podemos ter tanta certeza de que trocar Eve por mim - advertiu-a Kelly. - A moa est certa de que eles vo se casar...
      - Beth tambm estava - disse Mary. - J pensou na cara de Julian quando ele descobrir que o enganamos? Ser uma grande humilhao - disse ela alegremente.
- Mas ningum mais que ele merece esse castigo.
      - Voc o odeia muito, no ? - perguntou Kelly.
      - Sim, odeio - concordou Mary. Em seguida, desligou.
      Kelly pensou t-la ouvido acrescentar baixinho: "mas no tanto quando odeio a mim mesma", mas deveria ter imaginado aquilo, concluiu.
      A manh de quarta-feira no demorou a chegar. Kelly acordou cedo, cedo demais, ela reconheceu ao observar o sol nascer.
      Ainda havia tempo para se recusar a acompanhar Steve a Staffordshire. Mas que desculpa daria?
      Impossvel dizer que estava com medo de ir com ele, de dizer algo que no devia. Temia o que ele poderia pensar a seu respeito, ou o que ela poderia sentir.
No entanto, se no fosse...
      Julian a procurara na noite anterior. Telefonara para convid-la para sair. Com relutncia, Kelly concordou em encontr-lo em um bar local naquela noite, para
um drinque.
      - Voc  um homem comprometido, Julian - Kelly fez questo de lembr-lo com frieza. - E eu tambm sou...
      - Harry? - zombou ele. - Ele no  homem para voc, Kelly.
      - Mas suponho que voc seja - caoou ela, prendendo o flego ao se dar conta do que dissera.
      - Por que no experimenta? Prometo no desapont-la.
      Kelly ficou grata que estarem falando ao telefone e Julian no poder ver sua expresso de asco.
      - Ns somos muito parecidos, Kelly - insistiu Julian. - Ns perseguimos tudo aquilo que queremos da vida. Somos ambos somos aventureiros, excitantes e passionais.
Eu soube disso desde a primeira vez que a vi... Soube que seramos felizes juntos.
      -  Mas voc namorava Beth-Kelly o fez lembrar, friamente
      -  Beth faz parte do passado... Mas eu e voc somos o presente, Kelly.
      -  No somos nada, Julian - retrucou ela.
      -  Amanh  noite... No falte - intimou Julian. - Sabe to bem quanto eu que nos desejamos...
      Desej-lo? Kelly desligou o telefone revoltada com tamanha pretenso. Imaginava o que Steve diria se tivesse ouvido aquela conversa.
      Steve.
      Mas por que pensara nele justamente naquele momento?, questionou-se. Poucos minutos depois, a campainha tocou.
      Eve sorriu de modo hesitante quando Kelly abriu a porta, e ela e Steve entraram na loja.
      - Quero que saiba de algumas coisas antes de sairmos - disse Kelly. - Normalmente, s quartas-feiras no h muito movimento. Voc no ter problemas. Mas,
se acontecer alguma coisa fora do normal...
      - Tem o nmero de meu celular, no tem, Eve? - Steve interveio. - Qualquer problema,  s ligar e poder conversar com Kelly.
      -  Obrigada, mas tenho meu prprio celular - avisou Kelly. - O que eu estava querendo dizer,  que deixei o nmero do telefone de Mary, nossa senhoria, preso
 porta. Ela sabe que voc ficar cuidando da loja em meu lugar, e talvez venha at aqui para ver se est tudo bem. Mary pode ser um pouco estranha, mas  um doce
de pessoa... Ela  prima de Harry - acrescentou ela, vendo Eve corar.
      -  Eu o vi, outro dia, quando passeava pelo rio - disse Eve. - No sei se ele mencionou isso, mas...
      -  No, no mencionou - respondeu Kelly, antes de acrescentar gentilmente: - Quase no o vejo...
      -  Creio que podemos ir - Steve interveio, olhando preocupadamente para o relgio. - Daqui a pouco, o trnsito enlouquecer.
      -  Acho seu trabalho maravilhoso - disse Eve, com sinceridade. - Eu adoraria ter nascido com esse dom.
      -  mais uma habilidade adquirida, do que um dom natural - retrucou Kelly. - Tive sorte de estar no lugar certo na hora certa. Na verdade, ainda no fiz nenhum
trabalho importante.
      - No foi o que Steve disse... - Eve parou de falar e olhou ansiosamente para o irmo.
      O que Steve teria dito? Kelly tentou adivinhar pouco depois, enquanto Steve abria a porta do carro para que ela entrasse.
      Claro que poderia perguntar-lhe, e, talvez, mais tarde, fizesse realmente isso.
      A fbrica situava-se no muito distante da cidade, mas Kelly se sentia ansiosa e apreensiva quanto  viagem. Temia que Steve aproveitasse a oportunidade de
estarem a ss e fizesse perguntas sobre seu relacionamento com Julian. Se ele insistisse naquele assunto, teria de lembr-lo, mais uma vez, de que aquilo no era
de sua conta. Entrou no carro e acomodou-se confortavelmente no assento, em seguida, fechou os olhos. Esperava que Steve entendesse que ela no queria conversar.
      No entanto, sua linguagem corporal no foi bem interpretada, e ele quase que de imediato perguntou:
      - Cansada? Lamento termos que sair to cedo, mas, se voc quiser, poderemos parar para tomar um caf.
      Ele parecia estar levando uma tia velha para um passeio de domingo, pensou Kelly, irritada.
      - No obrigada, no estou cansada, e nem me julgo incapaz de viajar alguns poucos quilmetros sem parar para descansar. - No satisfeita, enfatizou o comentrio,
acrescentando: -
Tenho vinte e quatro anos, no setenta e quatro anos...
      - E mesmo? - perguntou ele. - Pois eu tenho trinta e quatro, e prefiro levar a vida calmamente.
      Kelly o fitou com surpresa. Aquele no era o tipo de comentrio que esperava ouvir de um homem to bem-sucedido quanto Steve.
      - Veja meus pais por exemplo, morreram jovens, com trinta e poucos anos, em um acidente areo - informou ele. - Viajavam para a Sua, onde meu pai pretendia
fechar um negcio muito urgente. No conseguindo passagem em nenhuma empresa area, ele fretou um jatinho. Houve uma tempestade, e tudo subitamente se acabou. Depois
disso, jurei a mim mesmo que jamais esqueceria que a vida no  s correr atrs de dinheiro. Eu tinha dezenove anos quando isso aconteceu, era quase um adulto. Eve
estava com seis.
      Dezenove anos. Kelly engoliu em seco, sentindo um n formar-se em sua garganta.
      - E voc? Tem famlia? - Steve quis saber.
      Kelly assentiu.
      - Um irmo que mora na frica do Sul com a esposa e trs filhos. Meu pai  aposentado, e mame  dona de casa... Eles costumam passar o inverno com meu irmo,
e o vero em nossa casa na Esccia.
      - Ento voc no  de Ray-on-Averton? O que a trouxe para c?
      - Beth, minha scia. Sua av sempre morou aqui e sugeriu a ela que aproveitasse uma oportunidade de negcio excelente que surgiu. E estava certa. Nossa loja
 um sucesso. Mas, o melhor de tudo,  que a forma como dividimos o trabalho me deixa com tempo livre para fazer minhas pinturas e aceitar novos desafios.
      - Ento, em todos os aspectos, a sociedade de vocs  muito boa...
      - Sim, .
      Kelly no queria que Steve comeasse a fazer perguntas sobre Beth, pois no fazia idia se ele sabia ou no que Julian estivera prestes a se casar com ela,
e que s no se casou porque conheceu Eve. Podia imaginar que tipo de concluses ele tiraria, caso viesse a saber daquela histria.
      Steve pareceu ter lido seus pensamentos.
      - Voc disse que Julian  um velho amigo. Mas pelo que acabou de me contar, no faz muito tempo que sua loja foi inaugurada.
      - Bem, mais ou menos... - respondeu ela, de modo evasivo, sentindo-se encurralada.
      Detestava sentir-se assim, admitiu. Segundo seus familiares, um de seus maiores defeitos era ser terrivelmente honesta. Prevaricao, de qualquer tipo, para
ela era um sofrimento terrvel. Ento, por que permitira que Mary a convencesse a se portar de uma forma que ia contra todos seus princpios? Fora pega em um momento
de fraqueza emocional, apenas isso.
      Mary, como Kelly comeava a descobrir, tinha o dom de descobrir os pontos fracos das pessoas, assim como a habilidade para us-los em proveito prprio. Apesar
disso, Kelly gostava da amiga, que, no fundo, era uma boa pessoa. Sabia bem que o aluguel que lhe pagavam era inferior ao que Mary poderia pedir a qualquer outra
pessoa. Sua preocupao com as duas, de certa forma, era quase fraternal. Elas jamais conseguiriam tanto progresso sem sua ajuda. Kelly perdeu a conta do nmero
de clientes que procuraram a loja, por indicao de Mary.
      Mas isso no a absolvia do pecado de ter se aproveitado de seu momento de fraqueza para convenc-la a participar daquela farsa que, a cada momento, tornava-se
mais difcil de manter.
      Desesperada para mudar de assunto, Kelly voltou-se para Steve.
      - Voc v muito sua av?
      - No tanto quanto gostaria - admitiu ele. - Eu e Eve a visitamos pelo menos uma vez por ms. Por sinal, faremos isso no prximo final de semana. Se quiser
nos acompanhar, ser um prazer. Voc teria oportunidade de ver o que restou do aparelho de ch, e conversar com vov.
      Ele a convidara para acompanh-lo em uma visita familiar, para conhecer sua av?
      Kelly abriu a boca para protestar, e a fechou em seguida. Finalmente disse:
      - Lamento, mas no posso. Tenho...
      - A loja para cuidar - Steve completou por ela.
      Teria imaginado um tom irnico e cnico em sua voz ou ele existira de fato?
      Anna poderia ficar na loja em meu lugar... Kelly tratou de fechar os ouvidos para aquela tentao.
      Steve tinha razo. Seria uma oportunidade de ver o aparelho de ch, aps ver os desenhos nos arquivos da Hartwell.
      No, seria melhor no aceitar o convite.
      No entanto, Kelly desapontou-se quando Steve no fez qualquer tentativa de persuadi-la a mudar de idia.
      - A ltima vez que passei por aqui, parei em um pub em uma vila prxima. Ao contrrio de voc, preciso dar uma descansada - informou Steve, ligando a seta
para indicar que entraria no prximo desvio.
      A parte rural de Warwickshire era desconhecida para Kelly, e a paisagem a encantou. Fazendas se estendiam em ambos os lados da estrada e, a distncia, podia-se
ver o reflexo da gua cristalina do riacho que corria entre as rvores.
      A vila, situada no alto da colina, tinha acesso atravs de uma estrada sinuosa ladeada de cabanas com telhado de palha.
      Kelly maravilhou-se enquanto Steve passava com o carro por baixo de uma ponte para chegar ao pub. O cenrio poderia ter sido pano de fundo para um conto de
Dickens.
      -  uma surpresa o lugar no estar lotado de turistas.  to bonito...
      -  uma vila familiar - explicou Steve. - Antigamente, todas as casas e terras pertenciam a uma mesma famlia. Aparentemente, assim que o ltimo conde morreu,
seu neto, decidiu vender as casas, mas apenas para pessoas que tivessem ligaes familiares com os habitantes da vila.
      O pub era um estabelecimento pitoresco. Seu interior era aconchegante e bem mobiliado, e as amplas janelas davam vista para um jardim bem cuidado. Um robusto
gato cor de caramelo encontrava-se confortavelmente instalado em uma das poltronas em frente  lareira.
      O caf que pediram foi trazido em uma requintada baixela de prata, com leite e creme em bules separados, acompanhados de deliciosos biscoitos de canela.
      Enquanto se servia, Kelly notou a forma educada com que Steve se dirigira  jovem garonete. Suas maneiras eram impecveis. A jovem sorriu de modo sincero
antes de afastar-se.
      Kelly havia estado com Julian em um restaurante apenas uma vez, quando por acidente, encontrou-o jantando com Beth. Juntou-se a eles por insistncia dele,
e sua atitude nada amistosa para com os garons deixou-a constrangida, tanto que no teve coragem de encarar Beth. No sabia como ela conseguia tolerar passivamente
a atitude arrogante e autoritria do namorado.
      Kelly era uma mulher moderna, mas que apreciava os bons modos e achou admirvel a gentileza de Steve. Era alarmante a sensao de prazer e orgulho que a inundava
por estar em sua companhia. A garonete devia consider-la uma felizarda por estar na companhia de um homem to gentil e educado.
      - Mais caf? - Steve ofereceu, quando Kelly terminou de tomar a primeira xcara.
      Ela recusou, olhando atravs da janela aberta, para o rio de guas cristalinas que corria l fora.
      Como se conseguisse ler seus pensamentos, ele comentou:
      - Talvez possamos parar aqui na volta, para almoar e dar um passeio. Se lhe agradar, claro.
      O que Kelly poderia dizer? Aps tanta gentileza, a ltima coisa que pensaria em ser era grosseria. No podia recusar um convite to agradvel. Ficou surpresa
com o prazer que lhe dava o clima harmonioso que se instalara entre ambos. Quando no fazia perguntas sobre Julian Cox, Steve era uma companhia reconfortante.
      Reconfortante? A quem pretendia enganar? Kelly questionou-se minutos depois, ao se olhar no espelho do banheiro feminino enquanto retocava o batom. Se achava-o
to reconfortante, ento como explicar a sensao de fraqueza e ansiedade que a assaltavam? Admitiu para si mesma, enquanto colocava a tampa no batom, que ele era
um homem poderosamente sensual! E da? As ruas estavam cheias deles!
      No entanto, jamais reagira a qualquer um deles como seu corpo reagia  presena de Steve. Era loucura, disse a si mesma. Nem sequer simpatizava com ele! Bastava
lembrar-se de quanto se irritara com as coisas que ele lhe dissera e fizera... Aquele beijo, por exemplo... Kelly afastou os olhos do espelho.
      - Pronta? - perguntou Steve assim que ela retornou  mesa.
      Seu sorriso era de tirar o flego.
      - Sim, estou - respondeu. Em seguida acrescentou em um tom profissional. - Acha que demoraremos muito a chegar?
      - No muito - disse ele, enquanto deixavam o local e se dirigiam ao carro no estacionamento.
      O lugar era familiar a Kelly, pois j trabalhara ali. E, quando os portes da fbrica surgiram a sua frente, um leve sorriso lhe veio aos lbios ao lembrar-se
do nervosismo que sentira ao chegar ali pela primeira vez.
      - Nada se compara  emoo de receber o primeiro salrio, no ? - perguntou Steve gentilmente, ao atravessarem os portes. - Ainda me lembro exatamente o
que
senti quando recebi meu primeiro contra-cheque.
      Ao trocarem um olhar de mtuo entendimento, ele de repente ficou srio.
      - E muito triste e preocupante pensar que muitos jovens, hoje em dia, jamais experimentaro a sensao de auto-estima que se sente ao ganhar o prprio dinheiro.
Corremos o risco
de criar uma sociedade dos que tm, e dos que no tm, e no meramente no sentido material, mas tambm no pessoal. Em minha opinio, o respeito por si mesmo,  to
bsico para o ser humano quanto o ar que respiramos. Como o amor, o verdadeiro amor,  auto-estima no pode ser comprada, mas sem ela nossas vidas so vazias e sem
sentido.
      Seus pensamentos, to em sintonia com os dela, deixaram-na desorientada, como se de alguma forma estivesse perdida, uma sensao ao mesmo tempo excitante e
assustadora. O pensamento daquilo que poderia acontecer entre ambos, se as circunstncias fossem outras, veio-lhe  mente. Mas aquele tipo de ligao, to rara e
to preciosa, era impensvel entre eles, totalmente impossvel, advertiu a si mesma enquanto Steve estacionava o carro.
      - Chegamos... - distraidamente ele avisou.
     CAPTULO VII
      - Voc est muito quieta. Espero que no esteja pensando em desistir de fazer o trabalho que encomendei - disse Steve, no retorno a Ray-on-Averton.
      A reunio no final da manh com o arquivista se transformou em um verdadeiro tour pela fbrica, e, aps a exaustiva consulta aos arquivos, seguiu-se um jantar,
no qual o arquivista mal continha seu contentamento, afinal, finalmente encontrara algum to cheio de entusiasmo quanto ele pela arte da pintura em porcelana. Aps
ter insistido em mostrar algumas das peas mais raras confeccionadas pela fbrica, ele ensinou-lhe um mtodo infalvel de misturar as tintas e as cores para conseguir
tons semelhantes aos originais.
      - No estou pensando em desistir. Mas estou receosa. Ser que farei um bom trabalho?
      - Claro que far - Steve procurou incentiv-la. -  um trabalho realmente fascinante e complexo, mas tenho certeza de que voc o far perfeitamente.
      Kelly sorriu.
      - Agradeo a confiana... Eu julgava saber tudo sobre porcelana britnica, mas aps ouvir as explicaes de Frank, soube que ainda h muito a aprender.
      - Notei seu entusiasmo enquanto conversavam.
      - Ele no podia ter sido mais til... Disse que ajudar grandemente eu ver o original antes de comear a trabalhar, ser mais fcil reproduzir a tonalidade
exata das cores. Sugeriu que eu fotografasse as peas.
      Se  assim, o que est esperando para aceitar meu convite para ir conosco visitar minha av?
      - Terei de pensar a respeito...
      Eles saram de Staffordshire pouco antes das oito da noite. Quando Frank Bowes insistiu em lev-los para jantar, Steve a conduziu a um canto e disse baixinho:
      - Se voc no tiver outros planos para esta noite, creio que devemos aceitar.  verdade que combinamos de voltar ao pub, e caminhar  beira do rio, mas eu
detestaria ter de desapontar algum to gentil.
      - Bem, que mal h em jantarmos com ele? - perguntou Kelly.
      Jantar acertado, eles retornaram para junto do arquivista.
      - Eu gostaria que voc aceitasse meu convite, mas detestaria atrapalhar seus planos - disse Steve, enquanto desviava o carro para a pista mais veloz da estrada.
      A nfase que ele deu  palavra "planos" a fez fit-lo. Estaria insinuando que sua hesitao em aceitar era por pretender sair com Julian?
      Ao se aproximarem de Ray-on-Averton, o clima harmonioso entre eles havia desaparecido.
      - No sei o que est tentando insinuar - disse ela friamente - Mas no posso dizer se aceito ou no o convite sem antes encontrar algum para ficar na loja
em meu lugar. Voc pode se dar ao luxo de ficar sem trabalhar, mas eu no posso.
      - Peo desculpas... - disse Steve, igualmente formal e frio. - Mas supus que o servio para o qual a contratei tambm fosse trabalho...
      Kelly sentiu o rosto arder.
      - Eu percebi isso... - retrucou ela seriamente.
      Claro que ela havia percebido, mesmo que, por alguns momentos durante o dia, tivesse esquecido que tudo no passasse de um relacionamento profissional.
      Na verdade, em vrias ocasies, a ntida linha que no passado sempre dividira sua vida profissional da pessoal, quase se rompera. Ao olhar para Steve, atrada
por algo que ele dissera, descobriu que no via o mais como cliente, mas sim como homem.
      E que homem!
      Kelly gemeu, em desespero. No era o que queria, ou o que precisava em sua vida naquele momento.
      Sua reao a Steve a teria assustado, mesmo sem a complicao adicional que era Julian Cox. Quando adicionava aquele fato  inflamvel mistura de raiva e atrao
que sentia por Steve, via-se diante de um coquetel potencialmente mortal, que sabia ser capaz de destru-la se no se cuidasse. Afinal, a combinao de todos aqueles
ingredientes seria to perigosa quanto alguma poo mgica e misteriosa, porque o resultado seria simplesmente o que chamam de amor.
      E Steve era a ltima pessoa a quem ela se permitiria amar. Ele j no se simpatizara com ela, e o que pensaria a seu respeito quando descobrisse que ela tramava
roubar Julian de sua irm?
      Poderia contar a verdade a ele, dizer que seus motivos eram os mais nobres e altrustas. No entanto, duvidava de que ele acreditasse, ou que se dispusesse
a ouvi-la.
      - Cansada?
      A inesperada preocupao, expressa com a voz profunda e mscula, fez sua garganta apertar. Temendo responder e revelar as emoes que a assaltavam, Kelly apenas
balanou a cabea.
      - Foi um longo dia - disse Steve. - Eu confesso que no fazia idia da complexidade da tarefa que pedi a voc que fizesse.
      Kelly respirou aliviada quando ele desviou o assunto para um tema bem mais seguro.
      - Ser um desafio... Minha maior preocupao  no decepcionar sua av. O aparelho de porcelana deve significar muito para ela... Quando Frank nos mostrou
aqueles jarros, dizendo
que estavam na mesma famlia havia seis geraes e quanto aquelas pessoas se esforam para preserv-los, entendi que no  apenas o valor material que importa, mas
tambm aquilo que uma pea como aquela representa... So pedaos da histria de uma famlia j ausente, lembranas muito pessoais...
      - De fato... - concordou Steve seriamente. - Posso ver nos olhos de vov, quando ela.olha para uma das peas que restaram do aparelho de ch, que  em vov
que ela est
pensando, o homem que um dia muito amou.
      Com uma ponta de inveja, Kelly divagou sobre como seria experimentar um sentimento to forte, capaz de confort-la com sua lembrana.
      Como seria a av de Steve? E como teria sido seu marido, o homem a quem ela tanto amara? Parecido com Steve? Seu corao bateu descompassado. No futuro, Steve
provavelmente tambm seria av de algum. O pensamento a fez refletir sobre o prprio futuro. Que emoo sentiria quando olhasse para o que ficou para trs? O amor
que comeava a sentir por Steve ento seria apenas uma frgil lembrana? Ela se lamentaria por no t-lo vivenciado intensamente?
      Steve saiu da estrada principal, e logo viram as luzes da cidade que iluminavam o vale adiante. Estavam quase em casa. Kelly permanecia em silncio, observando-o
dirigir o carro atravs das ruas tranqilas e vazias, em direo  loja. Rye-on-Averton era uma cidade agradvel de se viver. Seus moradores, na grande maioria,
eram pessoas de meia-idade e aposentadas. Havia grande freqncia nos bares e restaurantes, assim como os teatros e cinemas.
      - Subirei com voc - disse Steve ao estacionar o carro junto a calada diante da loja.
      - No ser necessrio - recusou Kelly, j com as chaves da casa em sua mo.
      Mas ele j saa do veculo e ajudava-a descer. Para sua surpresa, Steve silenciosamente tomou as chaves dela.
      - Sei que esta regio  tranqila, mas no me sentirei sossegado enquanto no a vir dentro de casa, e em segurana.
      Ento, ele estava sendo cavalheiro apenas por dever. E por que mais? Na certa no seria por querer adiar o momento da despedida. Ridculo! Devia estar ansioso
por separar-se dela, concluiu Kelly.
      -  por aqui - disse, indicando a entrada ao lado da porta da loja.
      Tomando a dianteira, Steve colocou a chave na fechadura e abriu a porta.
      - Obrigada... - comeou ela a dizer, parando  soleira, o aguardando que ele se fosse.
      Mas Steve ainda no considerava sua tarefa como cumprida. Balanou a cabea e entrou com ela. Olhou especulativamente para a escada.
      - Gostaria que subisse com voc, e desse uma verificada? -- ofereceu, educadamente.
      Kelly recusou a oferta, mas nem assim ele se foi. No hall de entrada, em um pequeno console, estava um vaso, uma das primeiras peas pintadas por Kelly.
      - Voc o pintou? - indagou Steve.
      - Sim... Inspirei-me em coisas que vi na frica do Sul, quando l estive de frias com a famlia.
      O vaso, todo em tons de verde, azul e branco, fazia-a lembrar-se das lindas praias da Cidade do Cabo. Um pas to belo, e com uma histria to cruel. Kelly
tocou as cores delicadas com dedos gentis. Boas lembranas dos dias em que brincava com os sobrinhos, surfando com eles, das noites em que passeava pela praia de
areia muito branca com os pais, o irmo e a esposa. Sentiu arrepios ao pensar no que seus pais diriam, se soubessem de seu atual envolvimento com Julian Cox.
      - Est com frio? - perguntou Steve, dando um passo em sua direo.
      Automaticamente, Kelly cruzou os braos, para evitar que ele a tocasse, enquanto balanava a cabea em um gesto de negativa, em resposta  pergunta que ele
havia feito. Ao fit-lo, seus olhos capturaram os dele, e, em seguida, seus lbios.
      O formato deles a atormentara o dia inteiro, o lbio inferior carnudo, a sensao perigosa e ilcita de adivinhar como seriam macios contra os dela.
      Justamente naquele momento, quando precisava estar mais controlada e segura, Kelly sentiu o pulso disparar, a respirao acelerar, as pupilas traioeiramente
dilatarem, revelando o desejo que tomava conta de seu corpo.
      Seu crebro implorava ao corpo para que agisse com sensatez, que evitasse o contato visual, diminusse o ritmo respiratrio. Seus sentidos no entanto, vergonhosamente
desobedeceram.
      Lentamente, Kelly desviou os olhos dos lbios sensuais, e fixou-os nos olhos dele. Foi como mergulhar em guas profundas, to frias que a fizeram estremecer,
e ainda assim to quentes que seus ossos pareciam derreter. Cada um dos seus sentidos, cada centmetro de sua pele, repentinamente, pareciam ter se tornado supersensveis,
mais receptivos do que o normal.
      Kelly podia ouvir a respirao de Steve, sentir na pele o calor que se irradiava dele, perceber sua tenso.
      De repente ento, viu-se deslizando para junto de Steve, procurando por sua fora. Em seus gestos, a promessa da entrega, a antiga linguagem corporal de mulher,
repleta de volpia, exigindo a ousadia de aceitar o desafio que lhe oferecia.
      - Steve... - Kelly sussurrou seu nome, os olhos semicerrados, transbordando de paixo ao fit-lo novamente. Ainda assim, mantinha a palma das mos contra o
peito dele, como que querendo negar a promessa que havia em seus olhos, o desejo em seu corpo.
      De repente, os braos de Steve abraaram-na, trazendo-a para mais perto dele, to perto que podia sentir o bater descompassado de seu corao. Corajosamente,
ela manteve os olhos abertos. Os dele brilhavam, ardentes, excitados.
      Seus olhos tornaram a fixar-se nos lbios de Steve, e uma louca vibrao tomou conta de seu corpo. Naquele momento, era a caadora, tensa, ansiosa, faminta.
      Seus lbios se encontraram, travessos, receptivos, ao mesmo tempo suaves e ansiosos. Enquanto a beijava, Steve deslizava as mos por suas costas, acariciando-a,
o corpo forte e poderoso contra o dela.
      Kelly sentia-se mole, como o vidro antes de ser moldado e soprado, fluido, esperando para ser esculpido, um elemento natural que podia ser moldado, mas jamais
forado.
      Steve a abraou fortemente, enquanto tentava abrir-lhe os lbios com a lngua. Ela se entregou, enterrou as unhas em suas costas, os mamilos enrijecidos sob
a blusa.
      Steve no precisava acarici-los para que ficasse excitada, mas quando o fez...
      Era ela mesma gemendo baixinho, um gemido faminto e quase sofrido? Seria mesmo Steve acariciando-lhe os seios, deixando-a to excitada?
      Kelly o desejava ardentemente. Queria sentir seu corpo, sua pele junto  dela, seu toque, seu amor...
      Agora, nos braos de Steve, ela era uma mulher amorosa, sensual, seus instintos femininos anulando todos os preconceitos. De forma to arrojada como teria
feito alguma sua ancestral, Kelly reconhecia seu direito ao amor e ao homem de seus sonhos.
      - Steve - Ao sussurrar-lhe o nome, Kelly demonstrava todo o prazer e toda a sensualidade que experimentava com aquela carcia.
      - Voc  to macia... E eu a desejo tanto...
      Qual dos dois tomou a iniciativa de fazer carcias cada vez mais ousadas? Aquele corredor mal iluminado, que jamais considerara romntico, agora se tornava
o mais secreto e protegido de todos os santurios. E o mais atordoante de tudo era saber que seu quarto encontrava-se a poucos passos dali.
      Seu corpo inteiro estremeceu ao perceber aonde seus pensamentos a levavam. Uma sensao de regozijo tomou conta de Kelly, como se voltasse a viver, descartando
o passado e recebendo o futuro e o amor por Steve de braos abertos. Como uma pessoa que, antes de descobrir que o amava, vivesse enclausurada, privada dos prazeres
e dos verdadeiros significados da vida.
      - No quero que v embora...
      Ao murmurar tais palavras contra a boca de Steve, Kelly o sentiu ficar tenso e, imediatamente, ele deixou de beij-la.
      - Eu tambm no quero ir, mas devo - sussurrou ele. - Estou aguardando um telefonema de Hong Kong. Tenho negcios por l, e estou envolvido em uma transao
da qual
ainda faltam resolver alguns detalhes legais. Amanh preciso ir a Londres, conversar com alguns contadores. Mas na volta...
      Steve fez meno de afastar-se para longe dela, mas pareceu arrepender-se e voltou, pegando sua mo e puxando-a gentilmente contra si.
      - Obrigado... - disse ele suavemente.
      - Por que est me agradecendo?
      - Pelo dia de hoje em sua companhia, por tudo o que aconteceu, por voc... - Steve inclinou a cabea e beijou-a nos lbios.
      Por ela, ele dissera. Por um momento, Kelly teve vontade de chorar. Havia tanto a seu respeito que Steve desconhecia, tanto que precisava ser esclarecido...
      -  Desconfio que esteja flertando comigo para que eu no cobre uma fortuna para restaurar o aparelho de ch de sua av - brincou Kelly.
      -  Garota esperta. Descobriu minha jogada - disse ele, com ar zombeteiro.
      Ansiosa, Kelly agarrou-se nele.
      - Oh, Steve,  tudo to novo e inesperado. No sei...
      -  perfeito... voc  perfeita - assegurou Steve, abraando-a com mais fora, fazendo-a apoiar a cabea em seu ombro. - Seremos perfeitos juntos... O que
mais quero,  ficar aqui com voc.
      Steve olhou para a porta do apartamento dela, e, adivinhando seus pensamentos, Kelly rapidamente assegurou:
      - Entendo que tenha responsabilidades e, de qualquer forma... Tudo aconteceu to depressa, to...
      - Eu a procurarei quando voltar de Londres - prometeu ele roucamente.
      - Tenho muito a lhe contar, coisas que voc precisa saber - avisou Kelly, enquanto Steve se afastava.
      - Que coisas? - perguntou ele, cheio de preocupao. - Eu j descobri tudo o que precisava saber, e adorei cada detalhe.
      - Oh, Steve...
      Foi impossvel no se atirar em seus braos e partilhar de mais um beijo apaixonado. Ento, Steve partiu, deixando-a ardendo de paixo.
      A verdade mudaria o que ele sentia? Ele entenderia, e aceitaria, que sua deliberada perseguio a Julian era motivada por sua lealdade a Beth?
     CAPTULO VIII
      - Voc entende, no , Mary? - perguntou Kelly  amiga, ansiosamente, sentadas frente a frente na sala do apartamento.
      Logo que Steve a deixara, apesar de passar das dez, Kelly telefonara para Mary. Ao v-lo partir, a inquietude tomou conta dela, uma necessidade imperiosa de
se ver livre das restries que seu compromisso com Mary lhe impunha.
      - Creio que entendo... - disse Mary secamente. - Voc est apaixonada por Steve Mass, e diante disso, no quer mais fazer parte no plano.
      - No  que eu no queira... eu no posso. No quero parecer dramtica, mas mesmo antes de Steve aparecer eu estava em dvida quanto a continuarmos com o plano.
Existe algo em Julian que no consigo suportar. Bem, no quero parecer dramtica, Mary, mas no consigo confiar nele.
      - Junte-se a eles - disse Mary sarcasticamente. - No quero estragar seu lindo sonho de amor, Kelly, e voc tem idade e maturidade suficientes para saber o
que faz, mas no se esquea de que Steve  irmo de Eve, e tem interesse no seu relacionamento com Julian.
      Kelly a fitou por um instante.
      - O que est insinuando? Que Steve est mentindo? Que finge estar interessado em mim, para que eu me afaste de Julian e deixe o caminho livre para Eve?
      - Nada disso. Estou somente querendo alert-la de que no se deve acreditar to piamente nas pessoas. Nem sempre as coisas so como parecem, e Steve pode ter
motivos secretos para agir como est agindo. Afinal, Julian  seu rival em potencial.
      - Eu quis contar a ele sobre Beth, mas decidi conversar com voc antes de tomar qualquer atitude - disse Kelly.
      Fora desconcertante ouvir as acusaes de Mary. Ela devia estar enganada, Steve era um cavalheiro e jamais agiria de m-f... Ou agiria?
      -  Sei que a decepcionei, mas no posso arriscar minha felicidade por algo que j passou. At mesmo Beth parece ter esquecido o que sofreu.
      -  No posso negar que voc me decepcionou, mas eu entendo... J me apaixonei um dia... - Mary se calou e, para surpresa de Kelly, ela havia corado.
      Por qu?
      Mary tinha apenas trinta anos e, afinal de contas, o que poderia ser mais natural do que ter se apaixonado?
      -  No vou fingir que estou feliz, que no gostaria de convenc-la a mudar de idia - continuou Mary. - Mas ainda me resta Anna. Julian parece ter mordido
a isca. Ela o encontrou "acidentalmente" na prefeitura, e chegou a consult-lo sobre como investir uma certa quantia em dinheiro a fim de obter o mximo de lucratividade...
Disse que recebeu o dinheiro de um seguro que havia feito.
      - Tomara que ela consiga levar o plano  frente... - disse Kelly, nada confortvel. - Voc tem de entender que precisarei dizer algo a Steve sobre o plano.
      As sobrancelhas de Mary ergueram-se surpresas.
      - Meu Deus, isso  mesmo amor! - comentou ela ironicamente. - Agradeo sua franqueza, mas eu gostaria que voc falasse o mnimo possvel sobre minha participao
e a da Anna no plano. Estou certa de que Steve ser discreto, mas preciso preservar minha imagem. Apesar de Julian merecer ser castigado, muitas pessoas pensam de
modo diferente e no quero ser taxada de mulher melodramtica, vingativa ou coisa parecida...
      - Steve jamais comentaria o assunto com algum se eu pedisse - assegurou Kelly, em defesa do homem amado.
      - Talvez...
      - Eu poderia dizer que ns todas concordamos que Julian merecia uma lio - sugeriu Kelly.
      - E no foi isso exatamente que aconteceu? - perguntou Mary ao se levantar.
      -  Uma coisa ainda me preocupa - disse Kelly, acompanhando-a at a porta do apartamento. - Eve, irm de Steve, est perdidamente apaixonada por Julian...
      -  E ele, por sua vez, est desesperado e se casar com ela, caso nada consiga com voc. Eu no lhe desejo um destino to triste... ter Julian Cox como cunhado.
      -  Ah, no diga isso. Talvez, eu devesse tentar conversar com ela, alert-la... contar o que ele fez a Beth.
      -  E acha que ela acreditar? - perguntou Mary desdenhosamente. - Julian deve ter contado tantas mentiras, que ser difcil convenc-la da verdade.
      -  Eu a conheo pouco, mas estou certa de que, se lhe contssemos a verdade sobre Julian, ela pensaria seriamente no assunto.
      -  Essa moa de fato tocou seu corao e o de Harry. Ele s fala nela, desde a noite do jantar. - Mary balanou a cabea. - Quando pretende ver Steve novamente?
      -  Ele vai a Londres a negcios, mas prometeu me telefonar assim que chegasse.
      - Bem, ento boa noite - disse Mary, saindo do apartamento.
      Ela havia estacionado o carro perto da loja, mas resolveu caminhar um pouco, antes de ir para sua casa.
      Desde menina gostava de caminhar pela beira do rio. Era seu caminho de volta da escola e, mais tarde, da volta da faculdade. Sua famlia vivera na regio durante
vrias geraes, sua me morreu pouco depois que ela nascera, e o pai, mais velho dezoito anos, morreu antes de Mary se formar.
      Ao voltar para casa, a fim de assumir os negcios do pai, Mary descobriu que era muito mais rica do que sempre supusera.
      Uma das primeiras coisas que fez com o dinheiro que herdara de seu pai foi, juntamente com seu tio, modernizar a fazenda da famlia e comprar mais terras.
      Seu pai, irmo dele, havia vendido sua parte na fazenda, preferindo especular no mercado de commodities. Mary achou que dar a chance ao tio de comprar de volta
as terras que seu pai havia tirado da famlia, seria uma forma de homenage-lo. Os dois irmos nunca discutiram a venda das terras, e sempre foram amigos, embora
fossem donos de personalidades muito diferentes. Quanto a Mary, que havia herdado a inteligncia do pai, sabia que a vida se tornava cada vez mais difcil para os
pequenos fazendeiros, e que o tio. sem ajuda, em pouco tempo precisaria vender ou alugar suas terras.
      Com o restante do dinheiro, ela fizera doaes a diversas instituies de caridade e tentara descobrir se tambm herdara o talento do pai para negcios, arriscando-se
no mercado financeiro. Descobriu com grata surpresa que tinha aptido para os negcios.
      Mas, aos vinte e um anos, uma garota queria muito mais da vida do que apenas uma farta conta bancria. Mary sonhava com um homem para amar e ser amada. A perspectiva
de um relacionamento duradouro e que inclusse amor, casamento e filhos a encantava.
      E, por um curto perodo de tempo, ainda cursando a faculdade, ela julgou ter encontrado o amor e o homem ideal, mas enganara-se.
      Com as mos nos bolsos do casaco, Mary parou de caminhar e olhou para as estrelas que brilhavam no cu. Por muito tempo esperou pela oportunidade de desmascarar
Julian Cox, de coloc-lo em uma posio vulnervel e insegura, como ela prpria estivera certa vez. Ah, sim, ela um dia tambm fora vulnervel...
      Mary mordeu o lbio inferior. No estava sendo vingativa, mas sim exercendo seu direito  justia, castigando a quem a fizera sofrer, e seus motivos no eram
totalmente egostas. Estava verdadeiramente tocada pela dor e o sofrimento de Beth. E, apesar do que Kelly parecia pensar, estava ciente da difcil posio em que
a colocara, e de quanto Eve sofreria, se ningum a advertisse sobre o pssimo carter de Julian.
      Claro, que Eve imediatamente romperia com Julian, se o envolvimento dele com Kelly se tornasse pblico. Pelo bem da irm, Steve ficaria feliz se isso acontecesse.
      Lamentava o fato de Kelly ter mudado de idia, mas nem tudo estava perdido. De uma forma ou de outra, Mary estava decidida a cobrar de Julian Cox, tudo o que
ele lhe devia, e com juros, por t-la feito passar por momentos de extrema angstia e desespero.
      No havia dor maior que a de uma decepo amorosa, com sonhos destrudos e o fim de um futuro promissor.
      Determinada, Mary comeou a retornar. Era hora de ir para casa. A deciso de Kelly lhe causaria problemas, mas nenhum que fosse insupervel, a menos que ela
permitisse.
      Onde estaria Steve naquele momento? Kelly tentou adivinhar, com ar sonhador, aps se despedir de um cliente. Passados cinco minutos, ela j fechara a loja
e subira para desfrutar do imenso prazer de se aconchegar no sof e lembrar de cada segundo do dia anterior, especialmente do que acontecera aps Steve ter insistido
em entrar, em deix-la segura dentro de casa.
      Mesmo agora, sentia-se confusa, perguntando-se a cada instante se tudo no passara apenas de um sonho.
      Sentia-se cheia de culpa por ter decepcionado Mary, recusando-se a continuar participando do plano, mas sabia que, mesmo se Steve no houvesse surgido em sua
vida, ela jamais conseguiria demonstrar interesse por Julian.
      Steve. Ainda estaria em Londres? Ou j estaria a caminho de casa? Quando teria notcias dele? Quando o veria?
      Kelly prendeu a respirao ao ouvir a campainha da porta tocar. Ao aproximar-se da porta de vidro para atender, avistou uma silhueta masculina.
      Ansiosa, esperava ver Steve, mas para sua grande decepo, ela se viu diante de Julian Cox.
      - O que houve com voc a noite passada? - Julian perguntou sem nem ao menos cumpriment-la. - Tnhamos um encontro, lembra-se?
      Kelly franziu a testa. Havia esquecido completamente o encontro, mas, ainda assim, a ltima pessoa que ela desejava ver era Julian Cox. Mas j que ele estava
ali, poderia aproveitar a oportunidade para deixar bem claro o que pensava dele. Deu de ombros displicentemente.
      - Mudei de idia - disse ela, dando-lhe as costas. Munindo-se de coragem, voltou-se para anunciar: - Na verdade, Julian, prefiro que no me procure novamente.
      - Como assim? - perguntou Julian, furioso, apertando os lbios enquanto parava diante dela, bloqueando sua passagem. Ela no podia simplesmente descart-lo
de sua vida. Kelly, com sua grande fortuna, sem nada nem ningum para control-la, representava um negcio muito mais lucrativo do que Eve, com sua herana e seu
irmo severo. E, alm disso, Kelly era mais atraente e desejvel. Ela o excitava de uma forma que nem Beth ou Eve jamais fizeram.
      - Estou dizendo que me arrependi de ter aceito seu convite Cometeramos um erro - informou Kelly o mais diplomaticamente possvel. - Voc est namorando outra
pessoa...
      - E da? - perguntou Julian. - Na outra noite, durante o jantar, isso no pareceu ser um empecilho, nem mesmo quando lhe telefonei...
      - Pensei melhor no assunto... Eve o ama, Julian - disse ela diretamente.
      Para sua surpresa, Julian sorriu de modo triunfante.
      - Est com cime? - perguntou, cheio de malcia. - Pois no devia ficar. Eve  apenas uma criana. Voc  uma mulher... Oh, Kelly, quantas coisas eu e voc
poderamos fazer... - disse ele roucamente. - Sabe o que quero dizer. Voc tambm me quer, posso ver a chama do desejo em seus olhos... Eve  um engano. E voc quem
quero, Kelly.
      Cheia de revolta, Kelly tentou se afastar, mas Julian encurralou contra a parede com o prprio corpo. Olhou ansiosamente para a porta, desejando que algum
entrasse colocasse um fim quela tortura. Tortura para ela, claro. Julian, por sua vez, parecia deliberadamente ignorar o que ela dissera. Seria to vaidoso, a ponto
de no se importar com o fato de ela detest-lo? Precisaria ser ainda mais dura e direta?
      - Julian, estou falando srio - disse com firmeza. - No quero tomar a v-lo. Lamento se lhe dei uma idia errada...
      - Se me deu uma idia errada? - explodiu ele, mudando de ttica diante da determinao dela.
      Julian no desistiria to facilmente. Quando ele conhecera Eve, no sabia que seu irmo exercia to grande influncia sobre ela e seu dinheiro. E para piorar
as coisas, ele e Steve no simpatizavam um com o outro. Aquele relacionamento tinha poucas chances de dar certo.
      - Voc s faltou me mostrar onde ficava sua cama, Kelly. Despertou meu desejo por voc, e pretendo conquist-la.
      - No! - protestou Kelly chocada.
      - Ora, vamos l... Sei que tambm me quer, posso ver em seus olhos, em sua boca... - Enquanto falava, ele ergueu a mo direita e pressionou o polegar contra
seu lbio inferior. - Jamais desistirei de voc.
      Kelly tentou empurr-lo, soltando um gemido desesperado. Julian conseguia deix-la fisicamente enjoada, alm de assustada, reconheceu, notando um brilho estranho
nos olhos dele.
      - Quero que saia daqui, Julian, agora!
      - Ah, quer mesmo? - respondeu ele agressivamente. - E se eu no quiser sair? E se preferir obrig-la a cumprir todas as promessas que fez? O que acha que poder
fazer contra mim? Como pretende me impedir?
      - Oua, Julian, se no parar com isso, se no sair daqui imediatamente, eu chamarei a polcia.
      Para seu desespero, Julian soltou uma gargalhada.
      - Acha que acreditaro em voc, aps o modo como se atirou em cima de mim? Kelly, deixe de agir como histrica.
      Raiva e medo a paralisaram, enquanto Julian a fitava, como um manaco.
      Ele era um homem desesperado, reconheceu. Parecia se divertir com seu medo, alimentar-se dele. Ela fez uma prece silenciosa, implorando que algum entrasse
na loja e a tirasse daquela situao. Mentalmente reiterou a splica, enquanto tentava no sucumbir ao terrvel tremor que tomava conta de seu corpo. Dizer que estava
com medo era pouco para descrever o que sentia. Seu corpo inteiro parecia estar congelado. Sabia que Julian seria capaz de fazer exatamente o que dissera, e que
nada, nada que dissesse ou fizesse o convenceria a deix-la em paz. Julian era um homem perigoso. Kelly admitiu que o subestimara, mas agora era tarde.
      Steve foi forado a permanecer em Londres por mais tempo do que pensava. Vrios imprevistos na finalizao do contrato com Hong Kong o prendiam na cidade.
Por vrias vezes sentiu-se tentado a telefonar para Kelly, mas preferiu livrar-se de todos os problemas profissionais antes de falar com ela. E, alm disso, quando
dissesse que a amava, queria ver o brilho em seus olhos, ouvir seu suspiro, saber que era correspondido.
      Inacreditvel. Na primeira vez em que a tivera nos braos, imaginara que estava imune ao risco de se apaixonar. Mas am-la era como estar no paraso, a realizao
de todos os seus sonhos mais secretos.
      Iria para casa, tomaria um longo banho e depois lhe faria uma surpresa.
      No entanto, a poucos metros de casa, ele mudou de idia e sentiu uma vontade incontrolvel, forte, imediata e intensa de v-la, e ultrapassou vrios sinais
vermelhos e at mesmo o limite de velocidade. Estacionou a poucos metros da loja. Esqueceu-se de trancar o carro enquanto caminhava rapidamente em direo  entrada.
      Ao se aproximar da porta, notou que havia pessoas l dentro. Kelly estava em p, de costas para ele, com a cabea inclinada de modo submisso diante do homem
que a segurava pelos ombros. Para qualquer um que os visse, a posio em que se encontravam teria parecido a de dois amantes. Steve, no entanto, de imediato soube
que no era amor o que a mantinha imvel diante de Julian Cox, mas sim medo.
      No parou para se questionar antes de empurrar a porta com fora e correr naquela direo. Furiosamente, afastou-a de Julian, e, ao fazer isso, no somente
viu alvio, como tambm choque nos olhos de Kelly, alm da angstia que cortava seu corao. Sua amada, sua querida, sentia-se constrangida por estar sendo atacada.
      Steve poderia ter facilmente esmurrado Julian Cox, por tentar for-la, e logo ele, um homem que se tinha como racional e amante da paz. Sua raiva era tanta,
que quase no resistiu  tentao. No entanto, por sobre o ombro de Julian, ele viu Kelly, o rosto plido e os olhos arregalados. Decidiu soltar o canalha e apenas
adverti-lo.
      - Saia daqui antes que eu me esquea de que sou um homem civilizado.
      - Voc entendeu tudo errado... -Julian comeou a dizer, enquanto se dirigia  sada. - A culpa  dela, no minha.  Kelly quem vem me provocando.
      Steve, porm j tinha ouvido o suficiente. Pegou-o pelo colarinho e virtualmente o arrastou at a porta e o empurrou para fora.
      - Se eu souber que tornou a se aproximar dela, prometo que se arrepender amargamente - ameaou Steve, em um tom frio e imperativo.
      Ento, ele fechou a porta e voltou-se. Kelly continuava imvel, e e/a era sua principal preocupao naquele momento.
      Ao se aproximar dela, Steve lembrou-se de Eve. Precisaria intervir com firmeza no relacionamento dela com Julian.
      - Est tudo bem agora, querida. Ele j foi.
      Ao ouvir sua voz terna, Kelly virou a cabea, porm sem fit-lo. Como poderia? Como conseguiria acalmar a dor, a tristeza, a humilhao pelo que acabara de
acontecer? O ataque verbal de Julian e sua ameaa a deixaram fisicamente abalada. Como se sentiriam as vtimas de estupro? Perguntou-se ela. Como conseguiam sobreviver?
A ousadia de Julian chegara bem perto do ataque fsico...
      - Venha... eu a ajudarei a subir...
      Kelly tentou se controlar, a responsabilidade fazendo-a lembrar-se de seus deveres.
      - No posso... - comeou ela a protestar, mas Steve a interrompeu.
      O olhar de Steve era um aviso de que no admitiria ser contrariado. Em seguida acrescentou, com gentileza.
      - Voc est em estado de choque, no conseguir trabalhar. Precisa deitar-se um pouco... - Ele se calou, e franziu a testa. - Onde est o telefone de seu mdico?
 melhor
que ele venha v-la.
      Kelly balanou a cabea.
      - No ser necessrio. Estou bem... - Seu lbio inferior comeou a tremer. - Foi minha a culpa - continuou, abaixando a cabea para que ele no pudesse ver
seus olhos
marejados pelas lgrimas. - Eu no devia ter...
      - O qu? Permitido que ele entrasse? A culpa no foi sua, Kelly. Vi o que estava acontecendo... No havia como aceitar o que se passava.
      A certeza na voz dele, sua convico em defend-la, com confiana e o amor, abalaram Kelly. Lgrimas amargas encheram-lhe os olhos e desceram por suas faces
enquanto ela balanava a cabea.
      - Ah, no, por favor, querida, no chore - pediu Steve.
      - Eu no devia t-lo deixado sair impune... A polcia...
      - No... no, por favor. No quero a polcia envolvida nisso - ela protestou. - Quero esquecer o que aconteceu, Steve. Ela comeou a tremer violentamente,
quando se deu conta do que podia ter lhe acontecido.
      - Vamos, vou ajud-la...
      Kelly deixou-se conduzir docilmente por ele.
      Cinco minutos depois, ela se encontrava em sua cozinha, tomando o caf quente com conhaque que Steve preparara. Aos poucos, sentiu-se relaxar, tanto fsica
quanto emocionalmente, libertando-se da tenso que tomava conta de seu corpo desde o momento que Julian chegara.
      - Julian queria... - comeou ela a explicar, desesperada para contar toda a verdade, dizer o que vinha fazendo e o porqu. Mas, antes que pudesse continuar,
sentiu-se terrivelmente zonza e cambaleou.
      Steve imediatamente a amparou. Pegou a xcara de sua mo e abraou-a.
      - Sei exatamente o que Cox queria... Mas ele se foi, Kelly. Est segura agora. Esquea o que aconteceu...
      - No, voc no entende - protestou ela, mas era impossvel coordenar os pensamentos, dar explicaes to difceis e dolorosas, com ele abraando-a e acariciando
seus cabelos.
      - Eu no devia t-la deixado aqui sozinha na noite passada - sussurrou ele. - Eu no queria ir...
      - Eu tambm no queria que se fosse - admitiu Kelly corajosamente. - Oh, Steve, ainda no acredito que isso esteja mesmo acontecendo, que eu e voc... Isso
me assusta - admitiu ela, em um ligeiro estado de embriaguez. - Nunca me apaixonei antes, mas sei que amar significa sofrer e...
      - Eu jamais a faria sofrer, Kelly - interrompeu Steve, apaixonadamente. - E tenho certeza de que voc jamais me magoar.
      - Como pode estar to certo? Existem coisas a meu respeito que voc desconhece, coisas terrveis.
      - No seja to dramtica - brincou ele, enquanto abaixava a cabea para beij-la.
      - Steve... - sussurrou Kelly, em uma ameaa de protesto. Tudo o que desejava era ser abraada por ele, sentir suas carcias, e tambm acarici-lo. Desejou
ter aquele corpo msculo em sua cama, a seu lado, aquecendo-a.
      - Bem... se  o que quer, no serei eu a impedi-la de realizar suas vontades - ele disse, enquanto gentilmente se afastava dela.
      Foi s ento que Kelly se deu conta de ter dito em voz alta seus pensamentos mais secretos.
      - Oh, Steve...
      O corao de Kelly disparou. Repentinamente, sentiu dificuldade para respirar, sua mente inundou-se de imagens sensuais dos dois juntos, e no podia esperar
para transformar aquilo em realidade.
      Levaram quase dez minutos para chegar ao quarto. Ele insistia em parar a cada passo do caminho para beij-la e dizer-lhe que ela era a mulher mais bela e desejada
do mundo.
      - Nunca o imaginei to romntico - sussurrou Kelly, notando sinceridade nas palavras e nos olhos dele. - Quando nos conhecemos, voc parecia to antiptico...
to frio e distante...
      - Eu estava com receio de demonstrar quanto voc havia me impressionado - admitiu ele docemente, segurando o rosto dela em suas mos e beijando-a com ternura.
      Steve a abraou, desfrutando a sensao provocada por aquele corpo macio. Ele no sabia se era certo ficar ali, mas sabia que no poderia partir e deix-la
sozinha.
      Embora o sangue pulsasse com fora em suas veias, ele procurou se controlar, para no estragar a magia daquele momento.
      Fitando-a nos olhos  procura de qualquer sinal de arrependimento, Steve desabotoou a blusa de Kelly. Seus de dos deslizaram lentamente na carne sedosa, afastando
o tecido.
      Depois ele roou a boca nos seios macios que tinham gosto de paraso. Sentiu o corao dela palpitando sob seus lbios. A batalha que ele enfrentava para recuar
perdeu-se em um nico tiro.
      Ele era dela.
      Steve tirou-lhe a blusa com cuidado, depois abriu o suti. A respirao de Kelly tornou-se mais acelerada, acompanhando o ritmo da dele.
      Kelly gemeu quando ele acariciou seus seios. Queria que ele a tornasse sua... desde o primeiro momento que o vira.
      - Senti tanto sua falta... - ela murmurou, abrindo a camisa de Steve, querendo sentir a pele dele contra a sua. Querendo sentir tudo. Estava to feliz...
      Era a primeira vez que se sentia realmente viva e queria agarrar-se quela sensao, ao mpeto avassalador que havia nascido dentro dela.
      Ele acariciou-lhe o rosto e entrelaou os dedos em seus cabelos. Kelly tinha sabor de coisas maravilhosas e proibidas, de tudo aquilo que ele se negara durante
toda sua vida. Percorrendo o corpo dela com os lbios, ele beijou-lhe o ventre, e ela estremeceu de prazer.
      A respirao dele queimava o pequeno pedao de tecido que separava Steve de centro de seu desejo. Com a cabea girando, ela se deliciou com o sbito estremecimento
que lhe percorreu o corpo.
      Segurando o quadril de Kelly, Steve desceu primeiro um lado da calcinha, depois o outro, o movimento lento e deliberado fazendo com que o fogo da paixo assumisse
propores monumentais nos dois. Quando ele a despiu totalmente, ambos estavam no limite da resistncia.
      Ela era dele, como se houvesse sido criada com essa finalidade.
      - Voc  to linda... - Steve murmurou, maravilhado.
      As palavras danaram na mente de Kelly, acelerando as pulsaes de seu corpo.
      O sentimento de urgncia invadiu-a. Calor contra calor. Sonhos e realidade tornaram-se uma coisa s.
      - Agora, Steve - Kelly pediu com a voz rouca. - Quero ser sua agora.
      Ele a cobriu com o corpo, observando seu rosto.
      - Tem certeza?
      No havia mais ar nos pulmes de Kelly. Seus olhos o acariciavam, dizendo coisas que seus lbios no se atreveriam.
      - Tenho. Nunca tive tanta certeza em minha vida.
      Ele a estreitou com mais fora. Tinham ultrapassado o ponto de retorno. Os dois agora tinham de se entregar. O ritmo acelerou-se, como o clmax de uma sinfonia.
      A fuso foi terna e avassaladora, meiga e turbulenta. Tempestade e arco-ris.
      Mais tarde, quando Steve se afastou, notou que Kelly respirava suavemente. Uma tranqilidade e paz de esprito o invadiu.
      Beijando o ombro de Kelly, ele comeou a relaxar.
      - Fique comigo, Steve - ela suspirou como se despertasse de um sonho maravilhoso. - Passe a noite aqui.
      Ela estava to tentadora que ele sentiu vontade de ficar para sempre.
      Tomando seu silncio por consentimento, Kelly aninhou-se ao corpo dele. Depois suspirou e fechou os olhos.
      Steve a abraou protetoramente. Estava to excitado que talvez no conseguisse dormir aquela noite. Mas ele no se importava, desde que ela estivesse a seu
lado.
      Horas depois o telefone celular dele tocou. Gentilmente, ele afastou-se de Kelly, tendo cuidado para no acord-la, Pegou o telefone que estava guardado no
bolso do palet e foi atender no corredor. Uma voz estranha do outro lado da linha identificou-se como sendo o mdico de sua av.
      - Ela caiu e foi encontrada por um vizinho. J a levamos para o hospital, mas infelizmente no poder ser liberada, pois est com uma forte pneumonia. Isso
acontece a pacientes idosos....
      - Estou a caminho - avisou Steve, sem esperar que o mdico terminasse de falar.
      De volta ao quarto, Steve vestiu-se o mais rpido possvel.
      Kelly se espreguiou e abriu os olhos. Ainda sonolenta, ela perguntou:
      -  Steve?
      -  Est tudo bem - disse ele. - Volte a dormir. Preciso ir agora. Explicarei tudo mais tarde.
      Quando viu os olhos dela tornando a se fechar, Steve reconheceu quanto ela devia estar exausta, efeito retardado do choque causado pelo ataque de Cox, misturado
ao conhaque e ao amor que fizeram durante horas.
      Ele precisava avisar Eve sobre o acidente com a av, e ligaria para ela do celular. Rezava para que Nan estivesse bem. Ela era uma lutadora, sabia disso, mas
uma queda sria em sua idade, seguida pela complicao de uma pneumonia poderia ser muito perigoso... O mdico lhe parecera muito preocupado.
      Silenciosamente, Steve deixou o apartamento de Kelly e encaminhou-se ao local onde deixara o carro.
     CAPTULO IX
      - Tem certeza, Steve? Vov est bem?
      - Sim, Eve. Os mdicos disseram que a pior fase j passou, mas que ela precisar ficar internada para observao. No entanto, esto confiantes de que logo
ela poder ter alta - assegurou Steve diante da preocupao da irm.
      Ele chegara ao hospital justamente quando a pneumonia da av atingia o estgio mais crtico. Sentou-se ao lado dela, segurando-lhe a mo e tentando emprestar-lhe
um pouco de coragem e fora. A certa altura, ela abriu os olhos e o fitou longamente. Ento disse o nome do marido falecido. Steve comoveu-se.
      Agora eram dez da noite, trs horas e dez minutos haviam se passado desde que deixara Kelly. Queria falar com ela, t-la a seu lado, mas precisava ficar no
hospital.
      - Talvez essa no seja a melhor hora para lhe dizer isso, Eve, mas voc sabe que nunca vi com bons olhos seu relacionamento com Julian Cox.
      - Oua, Steve, antes que continue, quero dizer uma coisa... - Eve o interrompeu, nervosamente.
      Steve sentiu o corao se apertar. Sabia quanto a irm era leal, crdula, e teimosa, mas se dissesse a ela que encontrara Julian atacando Kelly, talvez ela
o ouvisse.
      - Eve...
      Ela tomou a interromp-lo.
      - Steve, por favor, deixe-me falar. Estou decidida e agora sei que sou legalmente adulta. J falamos muito a esse respeito, e mesmo que voc, meu tutor, impea-me
de tocar em minha herana, no conseguir nos separar. Ns nos amamos e queremos ficar juntos. Precisamos ficar. Oh, Steve, eu amo tanto esse homem - confessou ela,
com tamanha emoo que Steve realmente se comoveu. - Sei que voc j esteve apaixonado, e me entender...
      Steve fechou os olhos e respirou fundo. Detestava ter de destruir os romnticos sonhos da irm, mas que outra alternativa havia, agora que tinha certeza de
que Julian era mau carter?
      - Entendo perfeitamente, Eve - disse ele gentilmente. - Mas precisa saber que est enganada a respeito de Julian e no pode se casar com ele.
      O silncio que se seguiu foi to grande e intenso que, por um momento, Steve pensou que estivesse falando sozinho, que ela houvesse desligado o telefone. Mas,
ento, ouviu-a revelar:
      - Oh, Steve, no  por Julian que estou apaixonada...
      Agora foi a vez de Steve ficar em total silncio. No estava apaixonada por Julian? Como assim?
      -  de Harry que estou falando - confessou Eve.
      - Harry? - Steve no poderia ter ficado mais surpreso.
      - Harry Lawson... Voc na certa se lembra dele, do jantar beneficente...
      Steve respirou aliviado.
      - Claro! Voc se refere ao rapaz que estava com Kelly?
      - Ele mesmo. Harry acompanhou Kelly ao jantar atendendo ao pedido de uma prima. Nada existe entre eles - informou Eve, em defesa do rapaz. - Oh, Steve, voc
gostar dele. Eu o amo tanto!
      - Sim, claro... - Steve sabia pouco a respeito de Harry. Era um rapaz ainda jovem e, aparentemente, de bom carter, fleumtico ao extremo, confivel e slido,
um excelente
apoio para Eve que era frgil e vulnervel.
      Uma sensao de alvio o inundou ao entender o que acabara de descobrir.
      - Diga-me novamente que vov ficar boa - implorou Eve. - Quero ir v-la, e Harry ir comigo.
      - Espere alguns dias, at ela voltar para casa - sugeriu Steve. - At l, Nan estar mais forte e disposta para receber visitas. Previna Harry, para que se
prepare para responder a um longo interrogatrio de sua av.
      Eve riu do outro lado da linha.
      - J o preveni. Steve, no queremos um casamento muito pomposo... apenas uma cerimnia simples, em famlia. Harry diz que no Natal seria timo, porque nessa
poca, o trabalho na fazenda diminui...
      -  Falaremos, sobre isso quando eu voltar - prometeu Steve, fazendo uma pausa antes de perguntar: - E quanto a Cox, Eve? J falou com ele sobre Harry?
      -  Ainda no, mas sei que no haver problemas... Queramos que voc fosse o primeiro a saber.
      -  Nem pense em falar com ele sozinha - advertiu Steve. - Ou melhor, deixe que eu faa isso.
      - No, Steve. Fao questo de cuidar deste assunto. Pedirei a Harry para ir comigo.
      Aps terminar a conversa, Steve respirou fundo e caminhou em direo ao estacionamento do hospital onde deixara o carro. O que acabara de ouvir era um verdadeiro
milagre. Eve e Harry, que surpresa agradvel.
      Embora Eve fosse legalmente adulta, Steve ainda se preocupava com seu bem-estar, ainda levava a srio sua responsabilidade como irmo. E agora, com uma escolha
acertada de Eve, via-se livre dessa obrigao e tambm da necessidade de se preocupar com o futuro dela, com sua segurana emocional e financeira. Isso significava
que poderia se dedicar inteiramente a Kelly.
      Ansiosamente, ele pegou o celular e digitou um nmero de telefone. Estranho como certos nmeros ele conseguia memorizar e outros no, refletiu enquanto esperava
que Kelly atendesse.
      Cinco... dez toques e nada. Aps trs tentativas, convenceu-se de que Kelly no estava em casa. Olhou para o relgio. Pretendia passar a noite na casa da av,
caso precisassem dele no hospital, e quando l chegasse seria tarde para telefonar para Kelly... Na certa ela estaria dormindo. Mas prometeu a si mesmo que a primeira
coisa que faria pela manh seria ligar para ela.
      Aps falar com Steve, Eve recolocou o fone no gancho e olhou para Harry, os olhos brilhando de contentamento.
      - Eu no disse que ele entenderia? - perguntou Harry. - Voc sofreu tanto por nada.
      -- Sim, eu sei... Mas meu irmo leva tudo to a srio que julguei que fosse ficar zangado, quando eu contasse que pretendamos nos casar, que o amava...
      Eve sorriu alegremente quando Harry colocou um fim em seu discurso, beijando-a carinhosamente. Amava aquele homem. Ele a entendia como ningum, sabia exatamente
como ela se sentia, o que queria, que precisava de algum que a tratasse com carinho, que a protegesse.
      Julian no era como Harry. Vrias vezes, ele fora muito cruel, dissera as coisas mais duras que j ouvira, fizera-a chorar... Harry jamais a decepcionaria.
      - Precisamos contar a Cox e, quanto mais cedo, melhor - lembrou Harry.
      - Sei disso, mas estou um pouco assustada com ele... Julian vivia dizendo que queria que ficssemos noivos, e ficava furioso quando eu dizia que Steve no
concordaria. Dizia que a opinio de meu irmo no importava... Parecia mais interessado em meu dinheiro do que em mim.
      Particularmente, Harry pensava o mesmo, em sua opinio Cox era um idiota. E no apenas isso, refletiu. Vieram-lhe  mente certos comentrios que ouvira em
sua casa. Mas ele no era de se intrometer no que no era de sua conta. Se Mary escolhera enterrar as lembranas no passado, no seria ele quem as traria de volta.
      - No prefere que eu fale com ele em seu lugar? - ofereceu Harry.
      Imediatamente, o rosto de Eve se iluminou.
      - Voc faria isso por mim?
      - Por voc, eu faria qualquer coisa...
      Eve sorriu emocionada. Ficou na ponta dos ps, e o beijou carinhosamente no rosto. Suspirou, quando ele a trouxe para junto de si e a beijou apaixonadamente
nos lbios.
      Seriam felizes juntos, ela e Harry... Mal podia esperar pelos bebs que teriam. Eles encheriam a antiga fazenda com suas presenas e risadas. Todos precisavam
de amor, e ela tinha muito a oferecer. Harry j a havia apresentado  famlia, mas no como sua noiva, embora todos soubessem exatamente o que eles sentiam um pelo
outro. Conhecera-os havia pouco tempo, mas os pais dele deram a entender que a aceitariam sem restries. A me de Harry era, em certos pontos, uma verso mais jovem
de Nan, gordinha e maternal. Ela, na certa, abrigaria a nora sob a asa e a manteria l, em segurana.
      - Falarei com Cox amanh cedo - prometeu Harry, relutando em solt-la.
      - Voc podia ficar aqui esta noite... Steve no estar e... - sugeriu Eve docemente, mas se calou, diante do olhar severo de Harry. Fez um muxoxo e sorriu.
- Eu sei... mas o amo tanto... Voc no me quer, Harry?
      A paixo no beijo que Harry lhe deu a resposta que precisava ouvir.
      - Se eu ficasse, teria de fazer amor com voc. E h uma tradio em nossa famlia, que o primeiro filho do casal nasa realmente nove meses aps o casamento...
No quero que nosso
filho chegue antes e quebre a tradio - disse ele.
      Harry tinha orgulho prprio e muitos princpios morais. Eve o admirou ainda mais e, carinhosamente, aninhou-se em seus braos.
      - Entendo, Harry. Ser como voc quiser...
      Kelly acordou totalmente desorientada. Por que estava sozinha na cama? Por que...
      Sentou-se e procurou por Steve na escurido do quarto, at que uma dbil lembrana de t-lo ouvido dizer algo sobre precisar ir embora lhe veio  mente, nublada
e confusa pelo efeito do lcool e do trauma da noite anterior.
      Levantou-se e caminhou para a cozinha, querendo tomar um copo de gua. Sua garganta estava seca, e seus olhos, inchados e doloridos. No frio da madrugada,
ela se arrepiou enquanto olhava para a escurido.
      Teriam ela e Steve realmente feito amor de forma to intensa, to passional, ou tudo no passara de um sonho? No. Ela podia sentir as diferenas no prprio
corpo, e sabia que as palavras gravadas em sua mente e corao haviam sido de fato sussurradas.
      "Oh, Steve, onde est voc?" Por que no a acordara e dissera aonde ia? O que estaria acontecendo? Teria sido sincero em tudo o que lhe dissera ou mentira
para ela?
      Apesar da intimidade que partilharam, havia muitas coisas que no sabiam a respeito um do outro. Kelly tentou revelar a verdade sobre Julian, mas suas tentativas
foram frustradas pela paixo do momento. O que Steve teria pensado ao encontr-la com Julian?
      Os pensamentos comearam a se confundir em sua mente. Kelly sentiu-se zonza e nauseada. Segurando a cabea entre as mos, ela gritou:
      - No, no quero saber!
      Era cedo para se levantar, mas ela sabia que se voltasse para a cama no conseguiria dormir. Aps caminhar de um lado para o outro no quarto, parou perto da
cama, pegou o travesseiro onde Steve apoiara a cabea e levou-o ao rosto, tentando sentir seu cheiro. Suspirou, lembrando-se que aquele tipo de comportamento era
apropriado para uma adolescente, e ela j era uma mulher adulta. Exausta, caminhou at a sala de estar onde havia deixado o material que trouxera da Hartwell.
      Meia hora depois, estava totalmente envolvida com os arquivos que precisava estudar.
      A perspectiva de pintar as peas para o aparelho de ch da av de Steve a estimulava artstica e emocionalmente. Steve encontrara a pessoa certa para fazer
quele trabalho, e certamente ele agradaria a av.
      Era romntica a idia dele de repor as peas faltantes do aparelho de ch da av, e mais romntico ainda pensar que havia sido justamente aquilo que os unira,
concluiu sonhadora, decidida a esquecer que se encontraram pela primeira vez por causa de Julian Cox. Aquele podia ter sido o primeiro encontro deles, no entanto,
a realizao mtua de seus sentimentos de fato acontecera por causa da porcelana Hartwell. E, quando contasse a seus netos sobre o dia em que eles se conheceram,
diria que foi no dia em que foram  Hartwell.
      Seus netos.
      Um leve arrepio a percorreu. No estaria sendo confiante demais, vendo coisas que talvez no existissem? Quando Steve falara de amor, poderia estar se referindo
a uma simples emoo, ao desejo de momento, e no sobre sentimentos profundos que durariam uma vida inteira.
      De repente, suas pequenas dvidas, tornaram-se gigantescas e devoraram sua confiana.
      Onde estaria Steve? Por que se fora daquela forma? Tinha uma vaga lembrana de v-lo inclinando-se sobre a cama, dizendo-lhe alguma coisa. Mas, naquele momento,
crucialmente importante, no conseguia se lembrar de suas palavras. Algo sobre precisar ir... mas por que a urgncia? Apagado o fogo da paixo do momento, teria
ele pensado melhor e se arrependido da noite de amor? Teria sua declarao de amor sido prematura demais, ou at mesmo mal-interpretada? Teria ela sonhado demais...
amado demais?
      L fora, o sol comeava a nascer. Kelly disse a si mesma que no havia razo para pensar de modo to negativo. Apenas Steve sabia a resposta para suas perguntas.
Somente ele poderia esclarecer suas dvidas. Mas aonde ele fora? Tinha seu telefone de casa, poderia ligar para ele quando quisesse.
      Kelly olhou para o telefone, com vontade de discar o nmero, mas era cedo demais, apenas seis da manh. E se seus piores temores fossem confirmados? E se ele
estivesse arrependido? Como Steve reagiria ao ouvir a voz dela? Como reagiria diante da invaso indesejada a sua privacidade? E como ela se sentiria, sabendo que
ele no queria lhe falar?
      "D tempo ao tempo... d tempo a Steve", pensou consigo mesma.
      Seis horas. Steve espreguiou-se, enquanto se virava na pequena cama do quarto de hspedes da casa da av. Era cedo demais para ligar para Kelly e tambm para
voltar para casa. Queria falar com o mdico antes de partir, saber do estado de sua av, se de fato estava se recuperando. Mas, segundo lhe disseram no hospital,
na noite anterior, o mdico especialista s chegaria depois das dez da manh.
      Telefonaria para Kelly antes de sair do hospital. Deus, como sentia falta dela, como a desejava. Lembrou-se da expresso de revolta que havia em seu rosto,
quando Julian a agarrou. Havia algo estranho ali. Ter um amigo como Julian no combinava com Kelly. Era bvio que ela o detestava, e, no entanto, flertara com ele
durante todo o jantar.
      - Somos velhos amigos - disse-lhe Kelly, quando ele perguntara, dias antes. Parecia um animal acuado, tentando esconder o prprio medo.
      Steve sabia, instintivamente, que de forma alguma Kelly seria to dissimulada. No combinava com ela. Jamais acreditara que ela se sentisse atrada por Julian
Cox. E no era uma questo de vaidade ou de ego ferido. Sabia que Kelly era sensvel demais para sentir atrao por um homem que menosprezava as mulheres.
      Mas talvez, apenas talvez, fosse possvel que Kelly, quando bem mais jovem e impressionvel, fosse incapaz de v-lo como ele era realmente. Afinal, sua prpria
irm se apaixonara perdidamente pelo canalha.
      Steve fechou os olhos e tentou ordenar os pensamentos. O que estava fazendo? O que pudesse ter acontecido com Kelly no passado, no tinha a menor importncia.
Ela no precisava dar explicaes nem se desculpar por nada. Amava-a como era, e se houvesse cometido algum erro de julgamento quando era jovem...
      Ela e Cox teriam sido amantes quando jovens? A revolta que ele sentiu foi uma reao tipicamente machista. No entanto, ainda mais poderosa, foi a certeza instintiva
de que Kelly jamais havia sido amante de Julian.
      Steve no sabia por que tinha tanta certeza disso, simplesmente tinha. E, sendo assim, devia a ela e ao amor de ambos, permitir-lhe que guardasse para si o
papel que Cox representara em sua vida, antes de eles se conhecerem.
      Mas isso no dava a Cox o direito de se comportar daquela forma, amedrontando-a, fazendo-a sofrer.
      Seis e meia. Steve ficava cada vez mais ansioso para tornar a v-la. Pensou em ligar para ela, mas o que desejava lhe dizer era pessoal demais para ser dito
pelo telefone.
      Eve havia lhe dito que ela e Harry pretendiam se casar no Natal, e Steve os abenoaria, mas seu casamento com Kelly teria de ser realizado antes do deles.
Pelo menos, era o que ele queria. Mas Kelly, na certa, demoraria algum tempo para decidir. Ela levava a srio sua responsabilidade para com a scia, Beth; isso era
evidente.
      Seis e quarenta e cinco. Steve gemeu, calculando quanto tempo faltava para ele poder voltar para Ray-on-Averton, e para Kelly.
      - Harry? Voc est acordado? - sussurrou Eve carinhosamente.
      Ele sentou-se na cama e olhou para ela com ar intrigado. Eve o convencera a passar a noite em sua casa, mas ele insistira para que dormissem em quartos separados.
Eve era to ingnua que mal percebia quanto abalava seu autocontrole, deitada nos ps da cama usando uma camisola branca de cetim, os cabelos soltos e sedosos caindo
sobre os seios.
      - O que houve? - perguntou ele.
      - No consegui dormir. - Seu rosto, repentinamente, ficou srio. - Quando pretende falar com Julian?
      - Amanh, s nove... Depois, ns dois sairemos para comemorar nosso noivado. Gostaria que usasse o anel que foi de minha av, mas entenderei se no gostar
dele.
      Eve corou ligeiramente.
      - Estou certa de que vou adorar. Oh, Harry, estou to feliz - disse ela, atirando-se nos braos dele. - Nem acredito que isso esteja acontecendo de verdade...
      Sete horas. Mary afastou as cobertas e saiu da cama. Olhou atravs da janela, observando a paisagem deslumbrante das terras frteis que, havia muitas geraes,
vinham sendo cultivadas por seus ancestrais.
      No passado, eles eram to frteis quanto as terras, mas agora ela e Harry eram os nicos da atual gerao. Harry obviamente se casaria, e com sorte teria filhos
e filhas para dar continuidade  tradio familiar. Ela jamais se casaria, nem teria filhos. Tendo sido criada sem a me, tornara-se inflexvel quanto a criar um
filho sem o apoio de ambos os pais. Talvez fosse uma viso um tanto antiquada para os dias atuais, mas era assim que pensava, e tinha o direito de responder ou no,
aos apelos de seu relgio biolgico.
      O futuro de sua famlia dependia unicamente de Harry, mas no precisaria ser dessa forma. Houve um tempo em que... Mas por que se lembrar disso agora? Mesmo
contra sua vontade, a imagem de Julian lhe veio  mente, fazendo seu corpo ficar tenso e dolorido.
      Esperara tanto tempo por uma chance de puni-lo pelo mal que lhe causara... puni-lo de uma forma que o fizesse sofrer tanto quanto ela sofrera. No entanto,
parecia que mais uma vez Julian escaparia das garras da justia. No adiantava culpar Kelly. O amor era uma fora poderosa. Ningum sabia disso melhor do que ela
prpria. Mas o jogo ainda no havia terminado, em breve Arma entraria em ao. Julian continuava precisando de dinheiro, desesperadamente. Estava endividado at
o pescoo, e afundaria rapidamente. Steve recusara-se a ajud-lo, mas ainda lhe restava o casamento com Eve.
      Sendo Steve responsvel pelo dinheiro da irm, quando Kelly lhe contasse o que Julian fizera a Beth, ele impediria o casamento da irm. Nem tudo estava perdido.
      Julian fora esperto o bastante para no burlar a lei, mas chegara bem perto disso. Mary descobrira os vrios nomes falsos que Julian usara e tambm seu envolvimento
em companhias fantasmas. Nas listas constavam alguns pseudnimos com as mesmas iniciais do nome dele, do da empregada de sua me e de pessoas j falecidas.
      Legalmente ele conseguia rir de suas vtimas, desafiando-as a exigir qualquer tipo de indenizao. Mas, moralmente... Bem, mas o que Julian entendia de moral?
O que lhe importava o bom nome das pessoas, o orgulho e o constrangimento de perd-lo? Absolutamente nada.
      Um sorriso amargo surgiu nos lbios de Mary, e uma angstia imensa a fez fechar os olhos.
      Seu pai fora um homem to orgulhoso! Distante e antiquado em relao  prpria filha, porm honesto. Mas ele agora estava morto, e de nada serviria lamentar
a falta de proximidade que sempre houvera entre pai e filha. Aquela chance no existia mais, fora destruda, assim como sua opo de casar-se e ter filhos, que lhe
fora roubada...
      Mary tentou afastar a melancolia e ocupou-se de trabalho. O mercado financeiro em Hong Kong logo estaria fechando e precisava verificar seus investimentos.
      Julian adorava jogar no mercado de futuros. Ou, pelo menos, adorava at pouco tempo, quando sofrera grandes perdas, massacrado por um rival fantasma que parecia
adivinhar todos seus pensamentos. Pobre Julian!
      Quando acordasse naquela manh, descobriria que seus investimentos haviam desaparecido, e que os lucros de que tanto precisava haviam se transformado em prejuzo.
      De repente, milagrosamente, Mary se sentiu melhor.
     CAPTULO X
      Julian olhou para a tela do computador, e seu rosto empalideceu. Havia acordado com a cabea latejando e a boca seca pelo excesso de lcool ingerido na noite
anterior. Kelly certamente se achava muito esperta, para instig-lo e depois ignor-lo. Mas ela no sabia com quem estava lidando.
      Ele suspirou. Precisava checar mais uma vez as aes que seu informante havia sugerido como sendo seguras. Comprara muitas delas com suas ltimas economias,
mas, naquela manh, quando fora examinar as cotaes, quase tivera um ataque. As aes haviam desaparecido, sumido, terminado, e com elas, tudo o que possua. Tudo.
      Que faria agora?, perguntou-se, levantando-se e atirando a cadeira contra a parede do escritrio. Precisava de dinheiro para saldar seus compromissos com os
bancos antes que cortassem seu crdito.
      Havia algum tempo, ele descobrira quanto era fcil persuadir pequenas instituies de caridade, normalmente gerenciadas por senhoras crdulas e ingnuas, a
aceitarem sua oferta de assessoramento, ensinando-as sobre como e onde investir. Aceitavam a ajuda de bom grado, dando-lhe acesso  contabilidade e ao dinheiro,
felizes por tirar dos prprios ombros a responsabilidade do controle das aplicaes. Desde que lhes proporcionasse um certo lucro, ficavam gratas e felizes e no
exigiam qualquer prestao de contas do capital investido.
      E era exatamente com isso que Julian se ocupava nos ltimos tempos, sem se importar com o fato de esse capital ter se esgotado enquanto o usava para financiar
seu estilo de vida requintado e fazer investimentos de risco. A excitao que essa atividade lhe trazia era maior da que poderia conseguir atravs do sexo e das
drogas.
      Claro que, certas vezes, o esvaziamento dos cofres de algumas dessas instituies vinha a pblico, mas Julian sempre conseguia convencer as pessoas de no
ter sido o responsvel pelos maus investimentos e, pela conseqente perda do dinheiro. Ele inclusive exibia a assinatura de seus co-investidores nos papis, provando
a prpria inocncia. Ele sempre fora um excelente falsificador de assinaturas. A primeira vez em que colocara essa habilidade em prtica, fora quando roubara o talo
de cheques de um amigo.
      Bons tempos aqueles, quando a sorte o favorecia e a seus investimentos, e ele conseguia transferir dinheiro de um lado para o outro sem maiores problemas.
Agora, porm, as coisas haviam mudado. O mercado financeiro parecia estar contra ele, e j sofrera grandes perdas. Agora, precisava de dinheiro urgentemente. E tudo
por culpa de Kelly. Jogara alto na esperana de persuadi-la a permitir que ele cuidasse de seus investimentos, que a aconselhasse sobre como aplicar melhor o dinheiro
que recebera de herana. Mas ela o dispensara, fizera-o de bobo, e mulher alguma jamais ousara fazer isso.
      Lamentou-se mais uma vez por Eve no ter acesso ao prprio capital, mas disse a si mesmo que ela era uma mulher rica, e isso era melhor do que nada.
      Sentiu-se reconfortado. O suor e o pnico, de minutos antes, desapareceram. Precisava se acalmar... talvez tomar um drinque...
      Quando foi procurar a garrafa de gim que deixara na cozinha na noite anterior, ouviu a campainha tocar.
      Passava pouco das nove.
      Steve conseguiu falar com o mdico depois das dez, que lhe garantiu que sua av se recuperaria totalmente. Depois disso, ele foi visit-la. Apenas quinze minutos,
avisara o mdico.
      Aps deix-la, Steve verificou as horas no relgio. Kelly devia estar na loja. A caminho do estacionamento, ele pegou o telefone celular e digitou o nmero.
      Kelly acabava de abrir a correspondncia, quando ouviu o telefone tocar. Seu corao disparou ao erguer o fone e atender a ligao. Decepcionou-se ao ouvir
a voz de Beth.
      - Ol... Como vai? - perguntou sua amiga e scia.
      - Bem, e voc?
      - No to bem, Ainda no consegui visitar a fbrica sobre a qual falei no outro dia.
      Enquanto Kelly ouvia a voz entusiasmada da amiga, percebeu o sinal de que havia outra pessoa querendo entrar na linha. Seria Steve? Mesmo que fosse, no podia
interromper o telefonema de Beth.
      - Kelly? Liguei para avisar que ficarei em Praga por mais alguns dias. Ainda no descobri o endereo da tal fbrica, mas estou determinada a ir at l, no
importa o que diga Alex. Pretendo me mudar para um hotel mais em conta, mas ainda no sei qual. Avisarei logo que souber.
      - Beth? Prometa que ter cuidado - implorou Kelly.
      - Se seu intrprete acha que no  seguro ir at l...
      - Ele s est querendo dificultar as coisas - Beth as segurou. - Oua, preciso desligar, mas ficarei em contato - disse ela, antes que Kelly pudesse objetar.
      Kelly no pde evitar a preocupao. Beth, obviamente, estava decidida a encontrar a tal fbrica, mas tanta determinao destoava de sua natureza gentil, quase
passiva. Kelly discou os nmeros que lhe davam acesso  secretria eletrnica. Seu corao disparou ao ouvir o recado.
      - Kelly, sou eu, Steve. Preciso v-la, conversar com voc... Devo chegar por volta das onze e meia. Poderia vir at minha casa? Pensei em ir at a loja, mas
prefiro lhe falar em particular... At mais.
      O que Steve pretendia? O que teria de to importante para lhe dizer? Kelly sentiu a boca secar e o corao bater feito um tambor.
      Teria Steve descoberto que no a amava de verdade, que tinha se enganado, por isso queria falar-lhe em particular?
      Kelly comeou a tremer.
      Para que se iludir? Steve s estava confirmando o que ela mesma supunha, e ele no era homem de sair de cena sem dar explicaes.
      Diria que lamentava, que no queria mago-la...
      Tinham vivido momentos maravilhosos, mas para ele tudo fora apenas uma aventura e no, como ela quisera acreditar, o incio de um relacionamento duradouro.
      Onze e cinco... Sairia da loja s onze e quinze... Teria tempo suficiente para dirigir at a casa de Steve.
      Julian olhou para a tela do monitor que acabara de pegar do cho. Estava estraalhado, destrudo como o restante de sua vida. A ltima coisa que esperava ao
chegar em casa havia duas horas, era encontrar Harry a sua espera. Ele educadamente perguntou se poderia entrar para conversarem. Sem outra opo, Julian concordou.
      - Preciso lhe contar algo - comeou Harry calmamente a dizer, enquanto Julian o conduzia at o living empoeirado e em desordem.
      Recusou um drinque que o dono da casa lhe ofereceu dizendo que ainda era cedo para comear a beber.
      - Nunca  cedo... - disse Julian, servindo-se de uma dose de gim.
      No fazia idia do que Harry queria. Mal o conhecia e para ser sincero, quase chegava a desprez-lo. Harry representava tudo o que ele mais odiava.
      - Eve me pediu para vir - disse Harry. - Eu e ela vamos nos casar...
      Julian o fitou, sem acreditar no que estava ouvindo. Aquele maluco estaria tentando lhe pregar uma pea? Notando a expresso no rosto do rapaz, sentiu um frio
na espinha. No era brincadeira.
      - Que est dizendo? Ela vai se casar comigo - Julian esbravejou.
      Harry nada disse, limitando-se a fit-lo.
      - No acredito nisso. Quero v-la... falar com ela...
      - Acho que no  uma boa idia - retrucou Harry.
      - Voc acha? Eve  minha namorada. Estamos quase noivos!
      - Ela era sua namorada, e se voc a houvesse valorizado um pouco, ainda seria.
      - Est tentando me ensinar como tratar uma mulher... - Julian soltou uma gargalhada e tomou o restante do drinque. - Que sabe a respeito de mulheres? Nada!
Eve me ama, ela mesma confessou que est apaixonada por mim...
      Harry continuou calado, recusando-se a responder, observando Julian com desdm.
      - Ela no pode fazer isso comigo... Mas eu sei quem est por trs disso tudo.  aquele idiota do Steve. Ele nunca...
      - Steve nada tem a ver com essa deciso! - corrigiu Harry. - Eve e eu estamos apaixonados...
      - Eve apaixonada? Por voc? No me faa rir. Ela me ama.
      Julian sorriu pensativamente enquanto se servia de mais uma dose de gim. Eve confessara que o amava e lhe dissera isso com os olhos arregalados de excitao
e alegria. Fora fcil engan-la, dizer que tambm estava apaixonado. Eve era to crdula... nem sequer questionou o fato de ele jamais ter tentado lev-la para a
cama, alegando apenas que a respeitava muito.
      Na verdade, seus prazeres se resumiam  bebida e  vida desregrada. Nervosamente lembrou-se de que Kelly, com sua ousadia e beleza, conseguira despertar seu
desejo.
      Sabia que Steve era o responsvel por tudo o que lhe estava acontecendo. Ele achava que Julian s queria o dinheiro da irm. E da? Julian mentalmente se perguntou.
No importava o que Steve pensava ou deixava de pensar disse a si mesmo. Quanto a Eve preferir Harry a ele... Isso era ridculo... impossvel...
      - No acredito em voc... Vou falar com Eve. - Julian dirigiu-se  porta, cambaleando, e para sua surpresa, ao chegar l, Harry estava a sua frente, bloqueando-lhe
a passagem.
      - Lamento, mas no vou permitir que moleste Eve. Julian o fitou, totalmente confuso.
      - Mas o que  isso? No pode me impedir...
      Para sua prpria surpresa, Julian se viu recuando. Que estava fazendo? No tinha medo de Harry.
      - Aceite um conselho, Cox. Ser melhor para todos os envolvidos se voc simplesmente aceitar a situao. As pessoas acharo que vocs simplesmente romperam.
Acontece
o tempo inteiro.
      Julian olhou para Harry. Que ele estava dizendo? Que ele, Julian Cox, sofreria a humilhao de ter sido abandonado por Eve? Impossvel!
      - Eve me contou que voc tem negcios em Hong Kong. Ouvi dizer que  uma parte fascinante do mundo, ainda mais nos dias de hoje... J esteve l alguma vez?
Eu nunca...
A fazenda no me deixa muito tempo livre para viajar...
      Julian continuou a encar-lo.
      O que Harry estava tentando sugerir? Que ele deixasse a cidade? Harry no teria coragem, nem a sutileza. No, estava imaginando coisas, assegurou Julian. Ele
era idiota demais para saber que Julian no poderia visitar Hong Kong naquele momento, no com o dinheiro que devia por l, e com os inimigos que havia feito.
      - Bem, j vou indo - avisou Harry, caminhando em direo  porta. Mas, antes de sair, ele voltou-se. - Se eu fosse voc, tentaria ficar longe do lcool por
algum tempo.
      Sozinho, sentado diante do monitor, Julian no conseguia acreditar no que ouvira. Eve no podia fazer aquilo com ele. Estava arruinado e contava com herana
dela para se reerguer.
      Precisava de um drinque e levantou-se para servir-se, mas encontrou a garrafa vazia. Precisava sair para comprar outra garrafa.
      Ao abrir a porta de casa, a claridade da manh ensolarada feriu-lhe os olhos. Alheio aos olhares dos pedestres, saiu cambaleando em direo ao centro da cidade.
Seu carro estava estacionado perto dali, mas algum resqucio de auto-preservao o alertou de que seria mais prudente no dirigir.
      Kelly achou que seus reflexos no estavam bons e que no deveria dirigir. Tremia dos ps  cabea, temendo o encontro com Steve. Apenas o orgulho a impediu
de telefonar para dizer-lhe que ele no lhe devia explicaes, que o entendia perfeitamente.
      Orgulho? No seria o desespero de uma mulher apaixonada, no querendo negar a si mesma o prazer masoquista de passar os ltimos minutos ao lado do homem amado?
      A linda manh parecia acrescentar um toque de crueldade a sua infelicidade, o cu azul, o brilho do sol, o passeio das pessoas pelas ruas com roupas leves,
sorrindo...
      Rye-on-Averton era uma cidade muito bonita, e caminhar por suas ruas e praas sempre lhe trouxera tranqilidade e paz de esprito. Mas no naquele dia...
      De cabea baixa, lutando para conter as lgrimas, Kelly caminhava rapidamente em direo  casa de Steve.
      Estava a menos de cem metros de l, quando ouviu algum chamar seu nome. Virou a cabea para olhar e congelou ao reconhecer Julian Cox, que caminhava cambaleante
em sua direo. Estava obviamente embriagado, e parecia ainda mais repulsivo, com a barba por fazer e as roupas amarrotadas.
      - Kelly... O que faz por aqui? Est procurando Steve? Ele a abandonou? - zombou ele acidamente. - Bem, o que esperava? Certamente, no foi estpida em acreditar
que ele estava apaixonado por voc. Ser que no percebeu? Ele queria afast-la de mim por causa de Eve. Um homem como aquele jamais olharia para uma mulher como
voc. Mas aposto que aproveitou para tirar vantagem do que voc tinha a oferecer... Ele mesmo confessou que no hesita em tirar o maior proveito daquilo que o dinheiro
pode comprar...
      Ao sair de casa, Julian fora direto para o supermercado, onde descobriu que no tinha dinheiro suficiente nem mesmo para comprar uma garrafa de gim. Enfurecido,
resolveu ir at a casa de Steve para tentar convencer Eve a reconsiderar sua deciso.
      No entanto, ao se aproximar da casa, para sua surpresa, viu Kelly. Lembrou-se de como ela o havia rejeitado e como Steve Mass o humilhara.
      Seu desejo de vingana encontrou um alvo perfeito em Kelly. Havia forma melhor de atingir Steve, do que destruir seu relacionamento com Kelly? Se de fato conhecia
as mulheres, Kelly jamais lhe perdoaria se soubesse que seu amado fizera comentrios ntimos sobre eles dois.
      Adoraria v-la sofrer.
      - Acha mesmo que ele alguma vez a amou? - perguntou ele cruelmente. - Como poderia? Steve viu a forma como se jogou em cima de mim durante o baile... Ele 
um homem
orgulhoso demais para ficar com os meus restos...
      Steve no conseguiu chegar em casa to cedo quanto esperava. Alguns telefonemas o detiveram, e para piorar as coisas, no conseguira uma vaga para estacionar
o carro perto de casa, somente no fim da rua. Passava das onze e meia.
      Acelerou o passo e, ao se aproximar de casa, avistou Kelly perto dali, com Julian Cox. Que faziam ali?
      Steve caminhou mais rpido ainda.
      Julian foi quem primeiro o avistou, e sorriu de modo triunfante, com a inteno de provoc-lo.
      - Que tal achou dela? - perguntou ele, apontando para Kelly, quando Steve se aproximou. - Eu adorei... Mas caso queira, posso lhe recomendar uma mulher muito
melhor...
      Kelly gemeu, um gemido torturado em protesto, mas os dois homens a ignoraram.
      - Bem, voc mesmo viu o que aconteceu durante aquele jantar - continuou Julian, de modo provocante. Comeava a se divertir com tudo aquilo. O efeito do lcool
estava passando, e seus instintos ficando mais aguados. Kelly estava plida como uma folha de papel. Que divertido!, pensou Julian.
      - Voc deve saber que Kelly e eu somos velhos amigos. Tivemos um caso enquanto eu namorava sua scia, Beth. Kelly sempre teve interesse em homens comprometidos,
diz que  mais excitante... e ela adora ficar excitada, e...
      Julian disse algo que fez Kelly corar envergonhada. Ela no conseguiu olhar para Steve. Como poderia se defender das falsas acusaes de Julian, sem revelar
o plano de Mary? Mas do que adiantaria? Sabia agora que Steve no a queria, no a amava de verdade. No entanto no gostaria que ele acreditasse naquele tipo de calnia,
sabendo que isso afetaria sua opinio a seu respeito.
      Julian continuou, ironicamente.
      - J expliquei a Kelly que voc a usou para afast-la de mim, por causa de Eve... Por acaso, ela est em casa? Prometi que a levaria para escolher o anel de
noivado esta manh.
      Enquanto falava, Julian passou ao lado de Kelly, quase a derrubando no cho.
      - Concordo com o que comentou sobre Kelly - disse ele, olhando para Steve. - Kelly de fato  excelente para uma noite.
      De repente, ao ver o brilho letal nos olhos de Steve, Julian tornou-se subitamente sbrio. Reconheceu que havia cometido um perigoso erro de julgamento. Mas
era tarde.
      Kelly no suportou ouvir nem mais uma palavra. Sem olhar para Steve, ela se afastou apressada, depois comeou a correr desesperadamente pela rua, ignorando
os olhares curiosos dos transeuntes.
      Steve olhou para ela como algum que houvesse se transformado em uma esttua de pedra.
      -  Preciso ver Eve, Steve - implorou Julian.
      - Esquea Eve. Ela vai se casar com Harry - respondeu ele fria e indiferentemente. - No o quero por aqui, Cox, e se souber que se aproximou de minha irm,
por qualquer motivo...
      - Est me ameaando? - perguntou Julian, percebendo que tinha sido muito duro em relao a Kelly.
      -  No, apenas avisando - respondeu Steve calmamente.
      - E, alm disso, Eve no est; foi visitar os futuros sogros. Agora, se me der licena...
      - Se fosse voc, no perderia tempo indo atrs de Kelly - interrompeu-o Julian, sorrindo. - Tudo o que disse  a mais pura verdade, mas acabar descobrindo
tudo por si mesmo. Ela no faz um homem perder tempo, tenho de reconhecer. Pena que no seja seletiva, e se deite com qualquer um...
      Julian no viu, mas certamente sentiu, o murro que o atingiu e o derrubou no cho com o nariz sangrando. Quando quis se queixar, Steve j no estava mais l
para ouvi-lo.
      Instintivamente, Kelly se dirigiu para o rio em busca de solido e privacidade.
      No podia voltar para a loja, e no havia outro lugar para ir, ningum a quem procurar, no naquele estado...
      Nenhuma das cruis acusaes de Julian era verdadeira. Alm de um breve e imaturo relacionamento adolescente, com o rapaz que fora seu primeiro namorado, nunca
houvera homem qualquer em sua vida. Steve foi o nico homem com quem dormiu. Mas como poderia provar-lhe isso?
      Steve no a amava, mas com certeza gostara dela e respeitara. Gemeu ao pensar que ele agora guardava uma imagem falsa a seu respeito...
      No havia muitas pessoas por ali, e os passos rpidos de Kelly diminuram enquanto sua cabea se enchia de pensamentos.
      - Kelly!
      O choque de ouvir a voz de Steve a fez tremer. No instante seguinte, ele a segurou pelo brao.
      - Por que correu daquele jeito? - perguntou ele, sentindo-a tensa.
      Kelly balanou a cabea. O choque de v-lo e estar to perto dele a deixava muda. Finalmente conseguiu falar.
      - As coisas que Julian disse... Ele mentiu. Voc foi o nico... - Kelly se calou, incapaz de prosseguir.
      Podia sentir a tenso em Steve, e quando ele ergueu a mo para tocar-lhe o queixo, forando-a a fit-lo, Kelly sentiu que ia morrer de dor pelo que esperava
ouvir.
      No entanto, o que havia nos olhos dele no era desprezo ou rejeio, mas sim ternura, amor e ansiedade.
      - Voc acha que eu acreditei em alguma coisa do que Cox disse?
      Kelly o fitou, de modo hesitante.
      -  Voc no acreditou nele?
      -  Claro que no. Como poderia? Que tipo de homem julga que sou? Devia saber que no preciso de algum como Cox para me dizer coisas sobre a mulher que amo.
      "A mulher que amo?" De repente, Kelly sentiu-se a mulher mais feliz do mundo.
      - Voc me ama de verdade? - perguntou, a voz estrangulada pela emoo.
      Steve ainda parecia preocupado.
      -  Claro que amo... Kelly querida, por favor no chore - implorou ele, acomodando-a em seus braos.
      -  Voc me deixou sozinha - choramingou ela, mais por alvio. Que motivos tinha para ficar infeliz, estando nos braos de Steve, ouvindo suas palavras carinhosas,
tendo seus lbios to prximos aos dele?
      - Foi preciso - disse-lhe Steve. - Recebi um telefonema dizendo que minha av sofrer uma queda e fora hospitalizada. Voc dormia to profundamente que no
tive coragem de acord-la...
      -  Sua av? Oh, Steve, ela est bem?
      -  Est sim... Agora est fora de perigo, e se recupera bem. Vov no v a hora de conhec-la.
      -  Contou a ela sobre mim? - perguntou Kelly timidamente. - Ah, o que...
      -  Eu disse que voc estava interessada em ver o aparelho de ch - provocou-a Steve. Ao notar a insegurana em seus olhos, ele acrescentou: - Depois confessei
que a amo, e que quero que seja minha esposa. Ela me fez prometer que a levarei comigo quando for v-la amanh...
      -  Oh, Steve...
      -  Est chorando outra vez? - brincou ele.
      -   porque estou muito feliz - assegurou-lhe Kelly. - Diga isso novamente...
      -  O qu? Que voc est chorando?
      -  No, que me ama e que quer se casar comigo.
      -  Eu a amo e quero me casar com voc. - Antes que ela pudesse responder, Steve tomou seu rosto entre as mos e a beijou.
      -  Steve, sobre Julian... - Kelly comeou a explicar, conseguindo finalmente convenc-lo a interromper o beijo.
      -  O que tem ele? Quero esquecer que aquele canalha existe - disse ele.
      -  S quero esclarecer uma coisa. Ns nunca fomos amantes. - Kelly estremeceu ao pensar na hiptese. - No poderia... ele  detestvel. Na verdade, voc foi
o nico. Isto , houve um rapaz quando eu era adolescente... Steve, como posso explicar se voc no pra de me beijar? - protestou ela.
      -  No quero saber de seu passado - disse ele. - Eu a amo muito, Kelly. Acha que eu acreditaria naquelas mentiras ridculas que Julian contou a seu respeito?
      -  Quando no o encontrei a meu lado na cama, pensei que voc tivesse mudado de idia sobre mim. E depois, quando ouvi sua mensagem na secretria eletrnica,
achei que queria me ver para dizer que estava tudo terminado. - Kelly mordeu o lbio ao ouvir o suspiro de incredulidade de Steve, mas estava decidida a falar. Levantou
a cabea e olhou firme nos olhos dele. - Quando nos conhecemos no jantar beneficente, eu estava flertando com Julian, e foi por isso que pensei que voc...
      - O que eu de fato pensei, foi que havia algo de muito estranho em seu comportamento. Voc parecia estar representando um papel nada agradvel.
      - Apesar de tudo isso voc me beijou...
      Steve a interrompeu.
      -  Seu comportamento despertou minha curiosidade. Achei que se a beijasse, voc poderia me dizer por que motivo agia daquele modo.
      -  Presunoso. Como pode achar que um simples beijo me faria falar?
      -  Fiquei atrado por voc - confessou ele. - E intrigado, vendo-a comportar-se de um modo que em nada combinava com voc. No entanto, decidi que, quaisquer
que fossem seus motivos para agir daquela maneira, era problema seu. Eu no tinha o direito de question-la.
      -  Fiz aquilo por Beth, minha scia - confessou ela. - Foi idia de Mary...
      Brevemente, ela explicou o plano da amiga.
      - Beth... Ento era esse o nome da garota que Cox namorava antes de conhecer Eve? Ele disse que ela era obcecada e que...
      - Julian mentiu... Ele estava prestes a ficar noivo dela quando conheceu Eve. Disse a sua irm que tudo no passou de imaginao dela... que nunca lhe prometeu
casamento. Mas Beth no  assim. Ela  gentil e doce, uma pessoa adorvel...
      - Como minha irm, eu imagino - concluiu Steve.
      - Mais ou menos... Mas, claro, Beth no tinha dinheiro algum... Desculpe-me por falar desse modo.
      - No h o que desculpar. Voc s est confirmando minhas suspeitas. Felizmente isso deixou de ser um problema. Eve est apaixonada por Harry, e eles pretendem
se casar no Natal. Aparentemente, para fazendeiros esta  a melhor poca para casamentos...
      - Harry? Sempre suspeitei de que ele gostava de Eve. Ele  primo de Mary. Foi por isso que me acompanhou ao jantar naquela noite... Steve, o que est fazendo?
- perguntou ela, quando Steve passou o brao por sua cintura e a impeliu na direo em que tinham vindo.
      - Vou lev-la para minha casa... Sabe que faz mais de vinte e quatro horas que fizemos amor?
      Ele a beijou, demonstrando a saudade que sentia dela.
      - Steve, preciso abrir a loja - disse ela.
      - No precisa, no. Todo seu estoque foi vendido.
      - Como assim? - indagou Kelly com surpresa. - Quem... O que...
      - Estou dizendo que, se a nica maneira de t-la s para mim for comprando todo o estoque da loja,  exatamente isso o que farei.
      - Mas voc no pode fazer isso - protestou Kelly. - Custar uma fortuna.
      - Sou um homem muito rico, lembra-se? O mais rico e feliz de todos os homens, agora que a tenho.
      - Seja como quiser.
      - Vov j est sonhando com nosso casamento, e ela faz questo que seja uma cerimnia tradicional... E no quero esperar muito tempo. Ns nos casaremos antes
de Eve e Harry.
      O corao de Kelly disparou.
      - Precisamos de umas trs semanas para que corram os proclamas. E minha famlia precisa vir da frica do Sul...
      - Haver tempo para tudo isso. Que tal nos casarmos no mesmo dia em que vov se casou daqui a mais ou menos dois meses? Ela ficar emocionada.
      - Parece-me perfeito - concordou Kelly alegremente.
      Steve a abraou.
     EPLOGO
      - No fique to triste porque seu plano no deu certo - disse Anna gentilmente a Mary, tentando consol-la.
      - No desmascaramos Julian publicamente mas, pelo menos, Beth parece ter se esquecido dele. No mencionou seu nome nem uma vez quando telefonou. Na verdade,
pareceu-me muito mais preocupada com o intrprete que a acompanha. E pense bem, se no fosse por voc, Kelly e
Steve nunca teriam se conhecido...
      Mary fitou-a com olhos tristes. Estavam sentadas no jardim de inverno, nos fundos da casa de Anna, o gato ronronando sonoramente em seu joelho enquanto o cozinho
implorava esperanosamente por um dos deliciosos biscoitos caseiros que Mary saboreava.
      -  Gostaria de ser como voc, Anna - confessou Mary, em uma rara demonstrao de autocrtica. - Voc aceita to bem as coisas...
      -  Talvez agora - concordou Anna, sorrindo gentilmente. -- Mas nem sempre foi assim. Quando Ralph morreu... - Ela se calou e balanou a cabea. - Vamos esquecer,
isso faz parte do passado. - Anna olhou pensativamente para a amiga antes de continuar. - J pensou Mary, que talvez seja hora de deixar Julian no passado, independente
do que ele tenha feito?
      -  Jamais. No conseguirei fazer isso enquanto... - Mary se calou. Por mais ntima que houvesse se tornado de Kelly e de Anna nas ltimas semanas, ainda era
difcil discutir certos assuntos com elas. - O jogo ainda no acabou - acrescentou ela. - Pelo menos, ele est mordendo nossa isca.
      "Nossa isca?" Anna preferiu se manter calada. Algo muito mais profundo no passado de Mary, alm de Beth, motivava-a a castigar Julian.
      -  Julian j se aproximou de voc, demonstrando interesse em ajud-la a investir em algo altamente lucrativo, no foi?
      -  Isso mesmo - concordou Anna.
      -  Excelente. Quando isso acontecer, finalmente o pegaremos, e ele ser punido - disse Mary, levantando-se. - Manterei contato com voc. Preciso tomar algumas
providncias para garantir que haja dinheiro suficiente para seduzir aquele canalha. At mais. Vejo-a mais tarde.
